Enciclopédia Colaborativa Digital

Mulheres no Brasil Pós-1889

Heleieth Saffioti (1934-2010)

Heleieth Saffioti no encontro Prostituição Infantil: uma questão de saúde pública – por Heleieth Saffioti, realizado pela ENSP. Núcleo de Video : CICT : FIOCRUZ, 1994. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2Dtkj8JmLH8 Acesso em: 16.08.2026.

Heleieth Iara Bongiovani Saffioti nasceu em 4 de janeiro de 1934 em Ibirá/SP e foi uma das pioneiras na inserção dos estudos sobre mulheres nas pesquisas brasileiras. Entre os anos de 1960 e 1980, a professora realizou relevantes pesquisas sobre a condição da mulher no mundo do trabalho. As suas obras se tornaram referências obrigatórias para as pesquisadoras que, já na década de 1980, fizeram multiplicar-se os estudos nacionais sobre mulheres, relações de gênero e feminismos. Igualmente, seu impacto se fez presente nos grupos feministas que começaram a surgir no Brasil a partir da segunda metade da década de 1970. As décadas iniciais de trabalho de Saffioti configuram o que pode ser chamado, segundo a pesquisadora Renata Gonçalves, a primeira de estudos. O período teve como enfoque principal a análise do trabalho feminino na sociedade. Entre as suas principais publicações destacam-se A mulher na sociedade de classes: mito e realidade (1969), Profissionalização feminina: professoras primárias e operárias (1969), Emprego doméstico e capitalismo (1978) e Do artesanal ao industrial: a exploração da mulher (1981). Já uma segunda fase, que se estende do início dos anos 1990 até o final de sua vida, é caracterizada pelos estudos sobre a violência (GONÇALVES, 2011, p. 120). Deste período, as publicações dos livros Violência de Gênero: poder e violência (1995) e Gênero, patriarcado e violência (2004) obtiveram importante repercussão, especialmente nas ciências humanas e como subsídios para elaboração de políticas públicas.

Filha de Angelina Bombarde Marconatto, costureira, e Ricieri Bongiovani, Heleieth descende de famílias de imigrantes vindos da Itália na segunda metade do século XIX, que se deslocaram para o interior do estado de São Paulo. Ao contrário de boa parte de seus pares intelectuais, Saffioti não nasceu em uma família da elite ou da classe média. Oriunda da classe trabalhadora, ela precisou migrar do interior para prosseguir com os estudos. Na década de 1950, mudou-se para a capital paulista e passou a frequentar o Instituto de Educação Caetano de Campos, também conhecido como Escola Modelo ou Escola Normal da Praça por ser localizado em frente à Praça da República, capital paulista.  Ao concluir a Escola Normal, Heleieth foi aprovada em primeiro lugar em uma seleção para aperfeiçoamento de professores do estado de São Paulo, o que lhe valeu a chamada Cadeira Prêmio. A premiação permitiu escolher em qual escola lecionaria e garantiu renda fixa, o que era bastante raro na época. As normalistas só tinham acesso à remuneração quando substituíam efetivamente uma professora titular. Heleieth optou por ficar na cidade de São Paulo.

Heleith e Waldemar Saffioti. Sem data e local. Disponível em: https://diccionario.cedinci.org/
saffioti-heleieth/

Saffioti relatou em entrevistas que a busca pela profissionalização foi uma forma de garantir ajuda para sua família.  Em 1956 ela ingressou na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, logo após sua nomeação como professora primária. As dificuldades encontradas ao longo da formação foram muitas em um ambiente universitário que ainda acolhia poucas. Também em 1956, Heleieth se casou com o Professor Waldemar Saffioti, de quem adotou o sobrenome. O casamento não se tornou empecilho para continuar os estudos, porém, a estudante trancou a faculdade por um ano para acompanhar o marido aos Estados Unidos, já que ele havia obtido uma bolsa de estudos. Este foi um fato importante na vida da jovem professora: sair do país natal, conhecer outros modos de vida e deparar-se com a condição de mulher recém-casada tendo que constituir uma relação longe dos referenciais que lhe eram familiares. Com bom humor, Heleieth conta que sentia uma enorme diferença cultural em relação ao seu esposo, que era treze anos mais velho. Após o retorno ao Brasil, Heleieth concluiu sua faculdade, formando-se em 1960. Dois anos depois, passou a trabalhar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, futura UNESP, onde seu marido já era professor.

Após o ingresso na faculdade, todo professor deveria apresentar tese de livre-docência ou de doutorado como prova de experiência para permanecer no cargo. Assim, Heleieth resolveu iniciar uma pesquisa empírica sobre a condição laboral das professoras primárias e das operárias têxteis. No entanto, em conversas com seu orientador, o sociólogo Florestan Fernandes, este a aconselhou a apresentar um estudo sobre a mulher na sociedade de classes. Saffioti conta que o professor teceu várias críticas, aconselhando, por exemplo, a retirar toda a terceira parte da pesquisa. Contudo, apesar do olhar crítico, ela recorda que acatou parte das observações e outras desconsiderou:  “as críticas que me pareceram pertinentes eu acatei, mas a maioria não teve esse destino não” (SAFFIOTI, 2011, p. 285).

Heleith Saffioti.
Defesa de tese de livre-docência. Disponível em: https://diccionario.cedinci.org/
saffioti-heleieth/
Acesso em: 15.08.2026.

Em suas entrevistas, Saffioti não escondeu que seus temas de pesquisa e enfoques teórico-metodológicos lhes renderam divergências, inclusive com seu orientador. No entanto, também gozou de autonomia para realizar as escolhas que lhe pareceram adequadas à época. Salientou que antes da defesa de sua tese de livre-docência circularam notícias sobre uma possível reprovação. O trabalho estava sendo vigiado pelo Conselho Estadual de Educação, já que, em plena ditadura, momento em que docentes eram alvo de perseguições, ela propunha uma leitura marxista da sociedade brasileira. Mesmo com o ambiente ameaçador, defendeu a tese em 1967, intitulada A mulher na sociedade de classes: mito ou realidade, obtendo aprovação da banca. A carreira acadêmica da pesquisadora foi marcada pela irreverência, o que lhe permitiu aportar contribuições teóricas originais para o pensamento feminista brasileiro.

 A tese foi publicada como livro pela primeira vez em 1969, pela editora Quatro Artes, com prefácio de Antônio Cândido, que também foi seu professor e integrante da banca examinadora. A segunda edição foi lançada em 1976, pela Editora Vozes.  Ao longo do livro A mulher na sociedade de classes, a autora nos apresenta o argumento de que o estágio de dependência do Brasil em relação aos países de capitalismo central impactou a situação feminina, sendo necessário examinar a unidade nacional dentro de uma totalidade capitalista mais ampla. Ou seja, a hipótese defendida por Saffioti era que a situação das mulheres precisava ser compreendida do ponto de vista nacional, dialeticamente vinculada à função do país no capitalismo mundial. Neste livro que inaugura as publicações de maior impacto da autora, a categoria sexo é inserida como fio condutor da análise, em conjunto com a classe social, para compreender a sociedade brasileira que, segundo Saffioti, é patriarcal.

Primeira edição de
A Mulher na Sociedade de Classes.
Disponível em:
https://humanas.blog.scielo.org/blog
/2021/09/03/o-pensamento-vivo-de-heleieth-saffioti/
Acesso em: 16.08.2026.

A partir dos anos de 1990, os trabalhos de Heleieth Saffioti aproximam-se  da categoria de gênero. Para Saffioti, a condição de gênero deve ser pensada para toda a história, pois identifica que mesmo em sociedades sem hierarquias entre mulheres e homens é possível identificar diferenças. Porém, para compreender como as diferenças de gênero se transformaram em relações desiguais de poder, é preciso articular a categoria ao patriarcado, entendido como um sistema que cria  hierarquias em todos os âmbitos da sociedade e que representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência.

Saffioti foi acusada de não ser suficientemente marxista por questionar a primazia do conceito de classe. Para a socióloga, as classes sociais tinham uma história mais recente que o gênero, portanto, desde o começo, as classes foram um fenômeno “gendrado”. Segundo a autora, no patriarcado moderno configura-se o que ela denominou de “nó” das três contradições principais (gênero, classe e raça). Segundo a autora:

Não se trata de somar racismo + gênero + classe social, mas de perceber a realidade compósita e nova que resulta desta fusão. (…) De acordo com as circunstâncias históricas, cada uma das contradições integrantes do nó adquire relevos distintos. E esta motilidade é importante reter, a fim de não se tomar nada como fixo, aí inclusa a organização destas subestruturas na estrutura global, ou seja, destas contradições no seio da nova realidade – novelo patriarcado-racismo-capitalismo – historicamente constituída  (SAFFIOTI, 2015, p.115).

A noção da existência de um nó entre as três categorias foi desenvolvida sobretudo nas publicações da chamada “segunda fase” da trajetória intelectual de Saffioti. Entretanto, a ideia de um entrelaçamento entre classe, sexo e raça já emergia, ainda que de forma embrionária, em seus escritos dos anos de 1960.  Vinculada ao pensamento marxista, a pesquisadora propôs uma mudança ao considerar, junto à noção de classe social, a categoria sexo como uma possibilidade de interpretar o Brasil. Assim, sua obra aportou relevantes inovações teórico-metodológicas ao considerar que a categoria “sexo” –  utilizada em seus estudos da década de 1960 –  poderia determinar padrões de ocupação e relacionamento no espectro social e econômico que eram estruturantes do sistema capitalista.  

Em seu livro inaugural, Heleieth Saffioti buscou escapar da  noção de mulher “universal”. Discutiu os efeitos do capitalismo para a população feminina, considerando a posição diferencial  e periférica  do Brasil no sistema capitalista. Também se propôs a comparar a relação entre mulheres brancas e mulheres negras na história. Para ela, a mulher branca representava aquela com quem o homem branco pretendia estabelecer matrimônio nos moldes da família patriarcal. Todavia,  a mulher negra não poderia ser reduzida a um objeto sexual, uma vez que a exploração econômica da escravizada era mais elevada que a do escravizado homem.

Por sua vasta produção intelectual e relevância para o feminismo brasileiro, Heleieth Saffioti recebeu diversos prêmios que constam em seu currículo lattes, tais como: 2002, prêmio mulher Cidadã Bertha Lutz (Senado Federal); 2003, prêmio Florestan Fernandes (Sociedade Brasileira de Sociologia); 2005, indicação ao Nobel da Paz dentro do Projeto Mil Mulheres; 2009, Professora Emérita da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp – Araraquara, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. O reconhecimento da sua importância para o feminismo pode ser também conferido nas muitas publicações que a referenciam como uma das principais intelectuais feministas brasileiras do século XX. A pesquisadora faleceu em 13 de dezembro de 2010, na cidade de São Paulo, aos 76 anos.

Heleieth Saffioti, em casa, Praça da República, Centro, São Paulo, SP – 25/08/05
Crédito: Marie Hippenmeyer / N Imagens

Em 2015, o Centro Cultural Chácara Sapucaia da UNESP de Araraquara (SP) inaugurou, como extensão da Biblioteca da Faculdade de Ciências e Letras, a Biblioteca Heleieth Saffioti (HEL), especializada nos estudos de gênero. O acervo conta com livros, anotações, rascunhos, cadernos e material de pesquisa pertencentes à pesquisadora e compreende 7.238 obras.

Autora: Natalia Pietra Méndez. Docente do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7580869559349158

Como citar: MÉNDEZ, Natalia P. Heleieth Saffioti (1934-2010). In: CARLONI, Karla. TAVARES, Mariana. (coords. ). Enciclopédia Colaborativa Digital Mulheres no Brasil Pós-1889, Niterói: PPGH-UFF, v. 2, n.4 (2026). ISSN: 3086-6510 (on-line). Disponível em: https://enciclopediamulheresbrasil.com.br/?p=982

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHARF, Clara. Brasileiras guerreiras da paz. São Paulo: Editora Contexto, 2006.

GONÇALVES, Renata. O feminismo marxista de Heleieth Saffioti. Lutas Sociais, São Paulo, n.27, p.119-131, 2 º sem. 2011.

MÉNDEZ, Natalia Pietra. Com a palavra o segundo sexo: percursos do pensamento intelectual feminista no Brasil dos anos 1960. 2008. Doutorado (Programa de Pós-Graduação em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

MÉNDEZ, Natalia P. A mulher na sociedade de classes: contribuições para uma historiografia feminista. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 29(1): e76728. DOI: 10.1590/1806-9584-2021v29n176728

MÉNDEZ, Natalia P. Entrevista com Heleieth Saffioti. MÉTIS: história & cultura – v. 9, n. 18, p. 275-294, jul./dez. 2010.

PINTO, Céli Regina Jardim. SAFFIOTI REVISITADA: a atualidade do enfrentamento entre feminismo e capitalismo. Caderno CRH, Salvador, v.33,p. 1-15. 2020.

SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976. [2ªedição].

SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado e violência. São Paulo: Expressão Popular : Fundação Perseu Abramo, 2015. [2ªedição].

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2000.

SORJ, Bila. Dois olhares sobre Heleieth Saffioti. Revista Estudos Feministas, v. 3, n. 1, p. 156-158, 1995.


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