
Acervo da Bibliotheca Gonçalo Moniz/Memória da Saúde Brasileira (UFBA). Sem autoria identificada, s/d.
Ítala Silva de Oliveira (1897–1984) foi uma médica, professora e escritora feminista brasileira negra. Nascida em 18 de outubro de 1897, em Aracaju, Sergipe, foi a primeira mulher sergipana a se formar médica pela Faculdade de Medicina da Bahia, instituição de grande prestígio no início do século XX, onde defendeu, em 1927, a tese intitulada Da sexualidade e da educação sexual.
A trajetória de Ítala deve ser compreendida no contexto das transformações sociais do início do século XX, período em que o acesso das mulheres ao ensino superior ainda era limitado e marcado por resistências institucionais e sociais. No caso das mulheres negras, essas barreiras se mostravam ainda mais profundas. Inserida em um cenário de desigualdades de raça e gênero, a trajetória da médica sergipana evidencia as estratégias mobilizadas por mulheres para acessar espaços de formação intelectual e profissional historicamente restritos.
Filha de Silvano Auto de Oliveira, primeiro sargento do Exército e considerado herói na Guerra do Paraguai, e de Marcionila Silva de Oliveira, que morreu precocemente (Santos, 2022), Ítala iniciou sua formação escolar no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, instituição confessional voltada à educação das jovens da elite sergipana. Segundo a historiadora Anamaria Freitas (2003), o fato de Ítala de Oliveira ter sido aluna de tal instituição demonstra que havia, por parte da família, preocupação com que ela recebesse uma educação de qualidade. O modelo educacional feminino da época era marcado pelo ensino religioso e pelo aprendizado de língua portuguesa, matemática básica e habilidades domésticas. No entanto, Ítala ultrapassou os limites tradicionalmente impostos às jovens de seu tempo ao ingressar no Atheneu Sergipense para cursar o ensino secundário, onde recebeu o grau de bacharel em Ciências e Letras. No Atheneu, espaço predominantemente masculino, a aluna ocupou, junto com outras poucas colegas, uma posição pioneira.
Logo após concluir o curso secundário, passou a lecionar em cursos noturnos destinados a meninas e senhoritas, ensinava disciplinas como português, francês e aritmética. Ou seja, seguiu trajetória semelhante de mulheres brasileiras e estrangeiras pioneiras na medicina, como Carlota Pereira de Queirós (1892–1982) e Maria Rennotte (1852–1942), que exerceram o magistério antes de concluir a formação acadêmica (Mott, 2000; Vieira, 2025). A opção pelo magistério funcionava como recurso estratégico para a construção de legitimidade social e relativa autonomia material, conferindo-lhes um certo grau de confiabilidade perante a sociedade, visto que, como destaca Mott (2000, p. 42), “a atividade de professora era uma das poucas profissões consideradas respeitáveis para mulheres”.
Paralelamente às atividades como professora, entre os anos de 1916 e 1919, Ítala também teve participação ativa na Liga Sergipense Contra o Analfabetismo, onde consolidou sua visibilidade no meio intelectual sergipano e colaborou com diversos jornais e revistas, tanto em Sergipe quanto em outros estados. Em artigos publicados em periódicos como Diário da Manhã (SE), O Estado de Sergipe (SE), O Democrata (SE), O País (RJ) e a Revista Feminina (SP), Ítala de Oliveira abordava temas como educação, instrução feminina, feminismo, voto feminino, casamento civil, beneficência e combate ao analfabetismo. Destacava a importância da autonomia e da independência financeira das mulheres. Amédica igualmente defendia a educação como instrumento fundamental para a emancipação feminina, argumentando que a suposta inferioridade da mulher decorria da sua falta de instrução. Assim, sua perspectiva dialogava com correntes do feminismo liberal do início do século XIX e início do XX, que valorizavam a educação e a maternidade como pilares para a construção de uma sociedade moralmente regenerada (Vieira, 2025).
Em 1921, Ítala se mudou para Salvador com o objetivo de cursar a Faculdade de Medicina da Bahia. Diplomou-se parteira em 1922 e, em 1927, concluiu o curso médico com o título de doutora em Ciências Médico-Cirúrgicas, com a já mencionada tese Da sexualidade e da educação sexual, na qual defendeu a necessidade de uma educação sexual científica, racional e acessível, dialogando assim com debates médicos e pedagógicos presentes no início do século XX, nos quais a sexualidade era concebida tanto como questão moral quanto como problema de saúde pública.
A tese de Ítala de Oliveira é um exemplo de como a medicina, a eugenia e o feminismo podiam estabelecer diálogos complexos e multifacetados. Em sua tese, a médica critica o silêncio que cercava os temas relacionados à sexualidade na educação formal. Para ela, não se discutir esses assuntos nos livros de história natural constituía uma ocultação seletiva que, baseada em premissas morais, impedia as mulheres de falarem abertamente sobre sexualidade e sobre o próprio corpo . Assim, a médica defendia a importância da educação sexual das jovens e a naturalização do desejo. Por meio do ensino seria possível blindar a população contra diferentes problemas (Vieira, 2024).
Ainda em sua tese, Ítala defende que o estudo e a difusão da educação sexual estavam diretamente relacionados à sua atuação como professora. A médica compreendia que, no espaço escolar, seria possível transmitir conhecimentos essenciais para a formação de uma sociedade saudável. Em sua avaliação, muitas queixas médicas poderiam ser evitadas se a educação sexual recebesse a devida atenção e deixasse de ser tratada como tabu ou motivo de vergonha (Vieira, 2024).

Acervo da Bibliotheca Gonçalo Moniz/Memória da Saúde Brasileira (UFBA). Salvador, 1927.
Para a médica, cabia ao ensino escolar orientar, na fase apropriada, o desenvolvimento de habilidades para uma vida equilibrada e proveitosa. Defendia, ainda, que a educação sexual deveria ser mais amplamente difundida, pois estaria ligada aos destinos da humanidade — uma compreensão que encontra vínculos com o pensamento eugênico do período, no qual as condutas sexuais, reprodutivas e educativas eram concebidas como fatores decisivos para o futuro da população.
A educação sexual defendida por Ítala de Oliveira (1927), portanto, não era entendida apenas como um saber individual, mas como uma estratégia de intervenção sobre o corpo social, voltada à prevenção de doenças, ao controle dos comportamentos e à orientação das escolhas reprodutivas. Inserida nesse contexto, a proposta de Ítala dialoga com uma vertente da eugenia que privilegiava a educação e a reforma dos costumes como meios de aperfeiçoamento coletivo, aproximando-se, assim, de uma perspectiva pedagógica e higienista. Ao mesmo tempo, a defesa do acesso das mulheres ao conhecimento de sua própria sexualidade reivindica um papel ativo na gestão de seus corpos e na construção das gerações futuras. Desse modo, o diferencial da tese de Ítala de Oliveira reside na articulação original entre aspectos do pensamento eugenista e princípios emancipatórios feministas.
Dividida em três partes, a tese de Ítala conta com 210 páginas dedicadas a defender a ideia de que “ignorância e pureza jamais foram sinônimos” (Oliveira, 1927, p. 15). A autora argumenta que o desconhecimento do próprio corpo não preservava a moral, mas produzia sofrimento, desigualdades e abusos, sobretudo para as mulheres. Nesse sentido, a médica defende que a educação sexual fosse especialmente estendida ao público feminino, pois as jovens sofreriam mais do que os homens em questões de amor e sexualidade — “a elas tudo sendo proibido, tudo sendo vedado” (Oliveira, 1927, p. 17). Garantir às mulheres o acesso ao conhecimento do próprio corpo e de sua sexualidade significaria, portanto, reconhecer um direito em benefício próprio e de seus futuros filhos. A instrução feminina contribuiria, assim, para o bem da espécie (Vieira, 2024).
Para Ítala de Oliveira (1927), a educação sexual também desempenhava um papel fundamental na formação de casamentos mais conscientes e equilibrados, fornecendo às mulheres instrumentos para avaliar não apenas os afetos, mas também as condições morais e biológicas das uniões. Em um contexto marcado por profundas assimetrias de gênero, no qual a honra feminina estava rigidamente associada à castidade, enquanto aos homens era socialmente tolerada uma vida sexual mais livre (Caulfield, 2000), a médica defendia a necessidade de uma moral sexual igual para ambos os sexos. Nessa mesma lógica, sustentava que as mulheres não deveriam tolerar nos homens comportamentos que, para elas, resultariam em desonra e exclusão. Assim, a educação sexual aparecia como uma ferramenta para que as mulheres pudessem escolher parceiros de forma mais criteriosa, evitando uniões que comprometessem sua saúde, sua dignidade e o bem-estar das futuras gerações, articulando, desse modo, preocupações feministas com elementos do pensamento médico e eugênico de seu tempo.
Ítala de Oliveira não se casou nem teve filhos, tendo levado uma vida dedicada à profissão. Após se formar em medicina, estabeleceu-se profissionalmente no Rio de Janeiro, onde atuou como obstetra e ginecologista em um hospital público na Zona Norte da cidade, mesma região em que, alguns anos depois, abriu também um consultório particular, permanecendo em atividade até sua morte, em 1984. Não há registros de que tenha exercido a medicina em Salvador ou em Sergipe, o que pode ser compreendido, conforme aponta Nunes (1984), à luz das dificuldades de inserção profissional enfrentadas por bacharéis na década de 1920 nesses estados e, de forma ainda mais acentuada, das barreiras impostas a uma mulher negra, recém-formada e sem redes familiares no campo médico, como destaca Santos (2019).
Embora existam poucos registros detalhados sobre sua prática clínica, a trajetória de Ítala Silva de Oliveira revela uma mulher que transitou entre a medicina, a educação e o ativismo intelectual, evidenciando a presença ativa de mulheres, e particularmente de mulheres negras, nos debates sobre ciência, educação e direitos femininos no Brasil do início do século XX. Sua atuação demonstra como o saber científico pôde ser apropriado como ferramenta de emancipação e de contestação das desigualdades de gênero.
Thayná Soares de Almeida Vieira. Mestre e doutoranda em História das Ciências e da Saúde PPGHCS/COC/Fiocruz.
Referências Bibliográficas
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.
FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Educação, trabalho e ação política: sergipanas no início do século XX. 2003. Tese (Doutorado em Educação) — Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.
MOTT, Maria Lúcia de Barros. Maria Renotte: uma médica paulista no início do século. Médicis: Cultura, Ciência e Saúde, São Paulo, ano 2, n. 7, 2000.
NUNES, Maria Thetis. História da educação em Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra; Aracaju: Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Sergipe; Universidade Federal de Sergipe, 1984.
OLIVEIRA, Ítala Silva de. Da sexualidade e da educação sexual. Salvador: Imprensa Oficial, 1927.
SANTOS, Mayara Priscilla de Jesus dos. Maria Odilia Teixeira: a primeira médica negra da Faculdade de Medicina da Bahia (1884–1937). 2019. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas) — Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2019.
SANTOS, Mayara. As trajetórias das primeiras médicas negras da Faculdade de Medicina da Bahia. Geledés – Instituto da Mulher Negra, 23 mar. 2022. Disponível em: https://www.geledes.org.br/as-trajetorias-das-primeiras-medicas-negras-da-faculdade-de-medicina-da-bahia/. Acesso em: 16 mar. 2026.
VIEIRA, Thayná Soares de Almeida. Em benefício dos filhos de amanhã: participação feminina na eugenia brasileira, 1918-1936. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v. 31, 2024.
VIEIRA, Thayná Soares de Almeida. A promoção da igualdade de gênero através da educação sexual: uma análise sobre o pensamento e a atuação feminista de Ítala de Oliveira. In: HOLZ, Vitória Longuinho; POUGY, Nina Monteiro (org.). Prêmio Elisa Frota Pessoa 2024: livro eletrônico. Rio de Janeiro: Museu do Amanhã; Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), 2025.
