Enciclopédia Mulheres no Brasil Pós-1889

Déia Torres Paranhos (1915-?)

Déa Torres Paranhos, arquiteta e urbanista, nasceu em 05 de março de 1915 na cidade do Rio de Janeiro. Era filha de Alfredo de Mattos Paranhos e Olga Torres Paranhos. Déa estudou no Instituto La-Fayette, renomada instituição de ensino do Rio de Janeiro situada no bairro da Tijuca. Em abril de 1930, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) para iniciar o curso de arquitetura. Manteve-se envolvida em atividades de liderança estudantil, sendo uma das poucas mulheres a participar do Diretório Acadêmico da ENBA a partir de 1931, onde seguiu assumindo cargos até sua formatura. Em 1934, a estudante se formou; em sua turma, constam nomes como o do reconhecido arquiteto Oscar Niemeyer.

Déia Torres Paranhos. Fotografia durante a cerimônia de formatura em urbanismo, RJ,1938. Acervo particular.

O período entre o final de 1930 e o início de 1931 foi, sobretudo, conturbado para a ENBA. Além dos impactos do golpe de 1930 — processo que afetou diversas instituições do país —, ocorreu a mudança de direção da escola com a nomeação de Lúcio Costa, que reforçou as reivindicações por reformas que já vinham sendo requeridas por parte de grupos de estudantes e docentes desde a década anterior. Portanto, Déa vivenciou esse clima de instabilidade e transformações que foram cruciais para o curso de arquitetura até sua definitiva separação da ENBA, para a formação da Faculdade Nacional de Arquitetura, em 1945.

Para o campo da arquitetura, o ano de 1933 foi importante devido à regulamentação da profissão junto à engenharia e à agronomia. Assim, em 1935, Déa registrou-se como arquiteta no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA), sendo uma das primeiras mulheres autorizadas por lei a exercer a profissão.

No ano de 1935, Déa matriculou-se no primeiro curso de urbanismo do Brasil, oferecido pela Universidade do Distrito Federal (UDF). Em janeiro de 1939, a arquiteta defendeu sua tese de conclusão intitulada “Projeto de melhoramentos na cidade do RJ”. Porém, consta que, na defesa final, Déa não foi aprovada. Contudo, é fundamental ressaltar que sua trajetória profissional, apesar da ausência do título de urbanista, foi integralmente no campo do urbanismo. Assim, pode-se concluir que Déa foi uma das primeiras arquitetas e urbanistas de fato, tendo em vista que o curso de arquitetura ainda não incluía a formação em urbanismo até aquele momento.

Nesta turma do curso de urbanismo também esteve presente Carmen Portinho, engenheira e líder feminista. Déa e Carmen foram, portanto, as únicas mulheres matriculadas no curso de urbanismo da UDF. Estas pioneiras eram amigas e estiveram juntas na conquista de direitos para as mulheres, bem como nas lutas de classe profissional da arquitetura e da engenharia. Neste sentido, é importante situar historicamente tais personagens no que diz respeito às suas condições socioeconômicas. Tanto Déa quanto sua amiga Carmen eram mulheres que faziam parte da classe média carioca, tiveram acesso a uma formação educacional de qualidade e aos meios profissionais que mulheres de camadas menos favorecidas não puderam alcançar. Portanto, através da trajetória de Déa, tais lutas — as das mulheres e as do campo profissional — podem ser compreendidas sob a chave da diversidade de propostas e pelos alcances sociais e políticos disponíveis na realidade de mulheres brancas, letradas e pertencentes a grupos economicamente favorecidos.

A arquiteta e urbanista também se envolveu em ações de caráter social, como as organizadas por Iveta Ribeiro, eventos esportivos, culturais e os promovidos pela Casa do Estudante do Brasil. Cabe ressaltar a participação de Déa, mesmo após formada, nas atividades promovidas pelos estudantes da ENBA e de outras instituições através de agremiações.

A questão política não ficou de fora da experiência de Déa. Ora associando política e feminismo, ora participando de atividades partidárias, na luta pela democracia e em discussões relacionadas à paz mundial, a trajetória da arquiteta e urbanista demonstra sua aproximação com grupos de perspectiva política de esquerda, em especial no que diz respeito às questões sociais.

Ao lado de Carmem Portinho, Déia Paranhos aparece na imprensa entre os alunos da primeira turma a se formar no curso de Urbanismo da Universidade do Distrito Federal (RJ). Jornal do Brasil, RJ, 07 de agosto de 1938, p.07. Acervo Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

A militância de Déa na luta pelos direitos das mulheres teve início enquanto ela era estudante de arquitetura. O contexto era de efervescência e de esforços coletivos pelo sufrágio feminino, e a estudante mantinha-se próxima a figuras e movimentos como Bertha Lutz e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Assim, diante da necessidade de alistamento das mulheres para que pudessem votar em 1933, nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte de 1934, Déa participou, como representante do Diretório de Estudantes da Escola Nacional de Belas Artes, da campanha de alistamento para o voto de estudantes universitários. Esta foi uma campanha associada à do voto feminino encampada pela FBPF.

Além das atividades na FBPF, Déa participou ativamente da União Universitária Feminina (UUF), entidade criada por Carmen Portinho em 1929. Na UUF, a arquiteta assumiu cargos e liderou diversas ações mesmo depois de ter terminado o curso de arquitetura. Uma das atividades promovidas pela UUF era o “Chá da Caloura” (1941, p. 13), evento cuja ocorrência era registrada na imprensa. Naquela ocasião, as recém-matriculadas em cursos de ensino superior na capital eram recepcionadas por membras da entidade em uma celebração de boas-vindas ao mundo universitário. Déa fez-se presente e organizou alguns desses encontros. Além disso, a arquiteta e urbanista foi representante da UUF em eventos estudantis, como congressos nacionais e atividades esportivas. Todavia, não somente falava em nome das universitárias: em certas ocasiões, manifestou-se publicamente, através da UUF, em defesa do direito ao exercício profissional das mulheres.

Déa também fez parte da fundação do Club Soroptimista em 1947, sendo membra do conselho diretor. Antes dessa participação, porém, aliando a profissão à luta das mulheres, a arquiteta e urbanista participou da criação da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA) em 1937. Consta que a ABEA foi idealizada por sua amiga, a engenheira Carmen Portinho, e, na ata de inauguração, além da assinatura de Déa, estão mais duas arquitetas junto a outras engenheiras. Na ABEA, Déa ocupou cargos e representou a entidade em eventos e comissões.

No que concerne à atuação profissional, a arquiteta e urbanista prestou concurso para a Prefeitura do Distrito Federal em novembro de 1934 para o cargo de desenhista. No mês seguinte, Déa concluiu oficialmente o curso de arquitetura com a cerimônia de colação de grau. Um ano depois do concurso, já devidamente registrada no CREA, foi nomeada. Importante ressaltar que realizaram o mesmo concurso duas outras arquitetas da ENBA, Regina Oliveira Reis e Ila Schueler Araripe, sendo Ila aprovada e nomeada no mesmo momento que Déa.

Em 1936 e 1937, como fruto das aulas do curso de urbanismo da UDF, Déa publicou com Carmen Portinho dois artigos na Revista da Directoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal, com os respectivos títulos: Aerophotametria (1936, p. 364–366) e Aerophotogametria: notas das aulas do curso de urbanismo da UDF (1937, p. 173–176). Em 1941, a arquiteta e urbanista participou da organização do 1º Congresso de Urbanismo no Rio de Janeiro, marcando, assim, sua trajetória no campo do urbanismo na prática e nos debates teóricos.

Na continuidade da ativa participação com relação às demandas da classe profissional, Déa passou a fazer parte da Sociedade de Engenheiros e Arquitetura da Prefeitura do Distrito Federal, ocupando vaga no conselho diretor. No ano de 1948, foi transferida para o cargo de arquiteta, assim como outros colegas de profissão que atuavam na prefeitura no cargo de desenhista.

Com as mudanças institucionais decorrentes da transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília, quando passou a existir o chamado Estado da Guanabara, alguns funcionários da prefeitura foram designados para ocupar cargos na Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara (SURSAN). Déa foi transferida para a SURSAN em 1958, passando a ocupar o cargo de Chefia do Serviço de Urbanismo e Arquitetura da Divisão Técnica. Neste órgão, além das atividades técnicas, a arquiteta e urbanista organizou uma mostra sobre as ações da SURSAN e participou da organização do livro comemorativo dos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro.

Diário de Notícias, RJ, 15 de fevereiro de 1946, Primeira Seção, p. 6.Acervo Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Através da trajetória de Déa Torres Paranhos, é possível observar aspectos da institucionalização do urbanismo enquanto saber e profissão nas instituições estatais de ensino e administração da cidade do Rio de Janeiro. Porém, não somente esse elemento: é imprescindível compreender que a atuação de Déa como mulher, arquiteta e urbanista está imbricada à sua atuação como feminista. Déa integrou a luta pelas mulheres à luta pelo reconhecimento da profissão. Considera-se que sua posição em prol da educação e profissionalização de mulheres — atuando em entidades diversas, participando de eventos e ao lado de líderes reconhecidas — demarca o lugar da arquiteta e urbanista no processo histórico de conquistas das mulheres no Brasil republicano.

São escassas as fontes com informações sobre Délia Paranhos. Até o momento não foram localizados registros do local e da data de falecimento.

Camila Almeida Belarmino. Professora da UFSC, doutora pelo IAU-USP e pesquisadora do Laboratório de Pesquisas em Teoria da História e Interdisciplinaridades da UFRRJ. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/2206299033438539

Referências Bibliográficas:

BELARMINO, Camila A. A mulher na arquitetura e urbanismo: trajetórias profissionais entre as décadas de 1910 e 1960 no Rio de Janeiro. 2024. Tese (Doutorado em Ciências) – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2024.

FESTAS. O Jornal, Rio de Janeiro, ano 23, n. 6717, p. 13, 4 mai. 1941. (Nota: O texto original dizia “ano 33”, mas o número da edição de 1941 de O Jornal costuma corresponder ao ano 22 ou 23. Mantive o dado original, apenas ajustando a pontuação).

PARANHOS, Déa Torres; PORTINHO, Carmen Velasco. Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal. Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 364-366, jan. 1936.

PARANHOS, Déa Torres; PORTINHO, Carmen Velasco. Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal. Rio de Janeiro, v. 4, p. 173-176, mai. 1937.

PORTINHO, Carmen. Por toda minha vida: depoimento a Geraldo Edson de Andrade. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

SOIHET, Rachel. A pedagogia da conquista do espaço público pelas mulheres e a militância feminista de Bertha Lutz. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 15, n. 43, p. 97-117, jan./abr. 2000.


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