Enciclopédia Colaborativa Digital

Mulheres no Brasil Pós-1889

Vera Silvia Araújo Magalhães (1948-2007)

Vera Silva Magalhães. Foto Acervo Colégio São Paulo.

No dia 05 de fevereiro de 1948, na então capital da República, atual cidade do Rio de Janeiro, nasceu Vera Silvia Araújo Magalhães. Seus pais, Claudio Pestana de Magalhães  e Maria Virgínia Araújo Magalhães, haviam recém-chegado à cidade, junto com sua irmã mais velha, Ana Lucia. Provindos de Porto Alegre, ambos pertenciam a partes distintas da mesma elite gaúcha.

Em um contexto histórico em que os espaços políticos eram, quase que exclusivamente, ocupados por figuras masculinas, seus familiares, especialmente do lado paterno, eram protagonistas dos círculos de poder. Isso, inclusive, contribuiu para a ida da família para a capital federal. Embora tenham se casado em Porto Alegre, os pais de Vera mudaram-se para o Rio de Janeiro pois Cláudio havia aceitado, em 1947, tornar-se oficial de gabinete do então ministro da Viação e Obras Públicas do governo do general Eurico Gaspar Dutra, Clóvis Pestana, seu tio.

Desde os primeiros anos em Copacabana, como hóspede do tio-avô ministro, até a estada definitiva da família em um apartamento no Leme, a política, em sentido amplo, fazia morada no cotidiano familiar. Em particular, o espectro do comunismo, que rondava a Europa, como diziam as primeiras palavras do panfleto clássico de Karl Marx e Friedrich Engels, escrito em 1848, passava a rondar, também, o mundo de Vera. Claudio, embora vinculado à realpolitik,  mantinha simpatia pelos ideais comunistas. Para além do pai, dois de seus tios, Catulo e Carlos, eram militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Comunista do Brasil (PcdoB), respectivamente. O tio caçula, apelidado de Carlinhos,  presenteou Vera, então com doze anos de idade, com o Manifesto Comunista.

 O ambiente doméstico, em que a política detinha um espaço central, construía-se de modo caótico e, ao mesmo tempo, instigante. Entrelaçaram-se ali, sob os olhos de Vera Silvia e sua irmã Ana Lucia, graves conflitos conjugais dos pais à uma vida boêmia e culta de representantes da classe média alta carioca que se beneficiava dos avanços relacionados aos “anos dourados” da capital federal.

Documentário “Vera Sílvia Magalhães – A História de uma Guerrilheira” (2004). Memória Política. TV Câmara. Disponível em: https://www.camara.leg.br/tv/212737-vera-silvia-magalhaes-a-historia-de-uma-guerrilheira/?pagina=45

Na conjuntura política de radicalização entre esquerdas e direitas  da primeira metade da década de 1960, Vera ingressou no colégio Andrews. Em 1963, no segundo semestre do quarto ano ginasial, construiu, junto com a irmã e outros alunos, uma greve contra o aumento da mensalidade. No ano seguinte, no contexto do  golpe contra o então presidente democraticamente eleito, João Goulart, que resultou  em 21 anos de ditadura militar, a jovem  passou a fazer parte do grêmio estudantil. Vera se politizou  em contato com obras de divulgação do pensamento marxista , assim como com os professores do Andrews e secundaristas de outros colégios do então Estado da Guanabara, estes últimos organizados na  Associação Municipal de Estudantes Secundaristas (AMES). A jovem também  entrou  em contato com o efervescente movimento estudantil universitário por intermédio da irmã, que havia ingressado no curso de Direito da então Universidade do Brasil (UB), posteriormente Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e participava dos debates e atividades vinculados ao Centro Acadêmico Cândido Oliveira (CACO).

Do contato com o marxismo e da familiaridade com matemática, Vera, no último ano do curso científico, decidiu prestar vestibular para o curso de Economia. Neste mesmo ano, tomou conhecimento da atuação de uma das várias frações estudantis que surgiam no interior do PCB: a Dissidência Universitária da Guanabara (DI-GB). Conjugando da ideia de que o PCB seria, dentre outros, responsável pelo golpe de Estado, por ter optado por uma política de alianças com a burguesia nacional no final da década de 1950, Vera fazia coro ao diagnóstico de que era necessário transformar a esquerda brasileira em uma perspectiva, efetivamente, revolucionária e, portanto, combativa.

Para saber mais: CODARIN, Higor. Vera Silvia Magalhães: revolucionar a vida, reconstruir o mundo. Jundiaí, SP: Paço Editorial, 2025. Resultado de pesquisa de doutorado realizado no PPGH-UFF.

Em 1967, a estudante ingressou na faculdade de Economia da UFRJ. No campus da Praia Vermelha fez parte da chapa Organização e luta, vitoriosa na eleição do centro acadêmico contra o grupo de direita que buscava a reeleição. Em meio ao aumento das ações e políticas repressivas da ditadura contra os estudantes, Vera se tornou uma liderança   entre os colegas de curso e, especialmente, no interior da DI-GB, ambos espaços majoritariamente masculinos.

Imagem retirada do Dossiê de identificação de Vera Silvia Araújo Magalhães. Então com 22 anos de idade. Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS). Arquivo do Estado do Rio de Janeiro.

A  capacidade e curiosidade intelectual, o arcabouço de leituras e as referências políticas, além de postura transgressiva com relação às normas de gênero e afetivo-sexuais da época, faziam-se sentir. A estudante defendia uma  visão heterodoxa do marxismo, incorporando referências da psicanálise, como Wilhelm Reich, que impactavam as suas escolhas afetivo-sexuais. Criticando as formas tradicionais de matrimônio, Vera mantinha uma relação principal com o companheiro de luta política José Roberto Spiegner, fato que não os impedia de desenvolver outras relações.

Com a instauração do Ato Institucional de número 5 (AI-5), consolidou-se , dentre as diversas organizações de esquerda surgidas no pós-1964, a visão de que apenas a luta armada derrubaria a ditadura, como diziam os slogans escritos nas faixas erguidas  nas passeatas contra o regime. Influenciada pela conjuntura revolucionária internacional, marcada pela  Revolução Chinesa (1949), as guerras de libertação nacional na Argélia (1954-1962) e no Vietnã (1955-1975) e, especialmente, a Revolução Cubana (1959), a DI-GB decide, em abril de 1969, aderir à luta armada. A linha política, decorrente das discussões realizadas entre os integrantes do grupo, foi escrita por Vera e Franklin Martins.

Registro de Identidade com nome de Angela Maria Costa. Acervo Superior Tribunal Militar.

O tempo era de ação. Refundar a esquerda brasileira para derrubar a ditadura e realizar a revolução brasileira. Vera tornou-se uma revolucionária.No  mesmo ano de 1969 , a estudante passou a fazer parte, como única mulher, da Frente de Trabalho Armado (FTA), setor da organização responsável pela realização de ações armadas e  participou de diversas ações de expropriação. Em cada uma delas, fazendo uso dos “jogos de gênero” (CAPDEVILA, 2001), uma nova mise en scène. Foi batizada, pelos órgãos de imprensa, como uma das “loiras dos assaltos”, que alimentavam o imaginário da época. Em setembro de 1969 , Vera integrou  a ação armada que capturou o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, obrigando a ditadura a divulgar o manifesto dos revolucionários nos principais meios de comunicação e a libertar  quinze presos políticos vinculados a organizações de esquerda. Pouco tempo antes da ação, a organização havia adotado o nome pelo qual ficaria conhecida: Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Após a soltura do embaixador, a fúria repressiva da ditadura se abateu, de modo geral,  sobre as organizações de luta armada. Em particular, os participantes da ação, pouco tempo depois descobertos, passaram a ser bastante procurados. Vera se escondeu  como podia. Após a denúncia de uma vizinha, seu paradeiro foi descoberto em fevereiro de 1970, quando morava junto de José Roberto Spiegner e Carlos Zílio em um apartamento na rua Montevideo, no bairro da Penha (RJ). A busca, que se tornou perseguição, resultou na morte de José Roberto, assassinado pela ditadura aos 21 anos de idade.

Ficha de identificação de Vera Silvia Araújo Magalhães. Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS). Arquivo do Estado do Rio de Janeiro.

Pouco depois, em março, realizando a cobertura de uma panfletagem na favela do Jacarézinho, Vera foi capturada por agentes de repressão  após ter sido atingida de raspão por uma bala na cabeça. Na prisão, depois de rápida passagem pelo Hospital Central do Exército, foi levada ao Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão militar de inteligência e repressão política, responsável por sequestros, torturas e assassinatos de pessoas consideradas “subversivas” pelo regime. . As severas torturas às quais Vera foi submetida resultaram na perda dos movimentos das pernas e ao desenvolvimento de uma infecção renal que quase a levou à morte, devido à negligência e conivência de parte dos médicos militares.

Vera em cadeira de rodas na Argélia. Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS). Arquivo do Estado do Rio de Janeiro.

Em junho de 1970 , junto a outros 39 militantes, Vera Silvia Magalhães foi libertada da prisão em troca da vida do embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, capturado por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Os registros fotográficos da jovem em uma cadeira de rodas  no momento do embarque em direção ao exílio na  Argélia, rodaram o mundo, servindo como uma das diversas provas das denúncias internacionais contra as torturas realizadas pela ditadura brasileira.

No exílio, depois de rápida passagem pela Argélia socialista, Vera realizou, como poucas mulheres, treinamento guerrilheiro em Cuba.  Entretanto, a fragilidade do MR-8 e, no geral, das organizações da luta armada brasileira, impediu seu retorno clandestino ao Brasil. Inicialmente idealizado como provisório, entreato do processo revolucionário, o exílio tornava-se indefinido, interminável.

Após passagem por Cuba, a militante retornou à Argélia. Pouco depois, viveu por alguns meses clandestina na França e na Alemanha Ocidental, até chegar ao Chile, no turbulento ano de 1973. Ali, junto com a esquerda latino-americana, sofreu a derrota derradeira, definitiva, com o golpe contra o então presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, em setembro. Vera abandonou, formalmente, o MR-8. O sonho revolucionário, que parecia, outrora, ao alcance das mãos, era varrido do horizonte latino-americano por golpes em sequência, que instauravam ditaduras. E em meio às perseguições e mortes, buscou refúgio na embaixada da Argentina. Ali, semanas depois, escapou da barbárie institucionalizada, conseguindo asilo político na Suécia. Depois de um curto período no país nórdico, o exílio definitivo na capital francesa.

Fotografia dos 40 libertos antes do embarque para a Argélia. Vera é a primeira pessoa à direita, sentada em uma cadeira em razão da perda dos movimentos. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Em Paris, Vera viveu cinco anos de permanência ambivalente. Retomou a vida universitária, viajou, fez amigos, viveu novos relacionamentos e se tornou mãe, quando nasceu Felipe, em 1978. No entanto, os aspectos luminosos do exílio coexistiam com a solidão, o afastamento da militância e o desenvolvimento de transtornos psíquicos. Após a Lei da Anistia, em agosto de 1979, Vera Silvia Magalhães  retornou ao Brasil. Despontava, a partir dali, o imperativo de reencontrar seu lugar na sociedade brasileira. Em vão.

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 14 de junho de 1970.

Sentindo-se estrangeira e deslocada, Vera tentou, por longos anos, encontrar algo que fizesse sentido como sua militância, seu projeto revolucionário. A clivagem entre o sonho de um Brasil revolucionário e o país que reencontrava era grande. Nunca se adaptou ao  novo país que encontrou. A falta de perspectivas e a sobreposição de problemas de saúde se retroalimentavam, em espiral. Para além de seguidas manifestações do transtorno afetivo bipolar, desenvolveu um câncer no sistema linfático. Em 2002, diante da expansão das políticas reparatórias do Estado brasileiro aos anistiados políticos ainda vivos, tornou-se a primeira pessoa a ser reconhecida e indenizada pelo Estado brasileiro em virtude das sequelas decorrentes das torturas a que foi submetida. Sem perspectivas e com problemas de saúde se avolumando, morreu, de forma prematura, no dia 04 de dezembro de 2007, em decorrência de um infarto em seu apartamento, em Copacabana.

Documentário “Vera Sílvia Magalhães – A História de uma Guerrilheira” (2004). Memória Política. TV Câmara. Disponível em: https://www.camara.leg.br/tv/212737-vera-silvia-magalhaes-a-historia-de-uma-guerrilheira/?pagina=45

Autor: Higor Codarin, doutor em História pela UFF e pós-doutorando vinculado ao departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4556647408674628

Como citar: CODARIN, Higor. “Vera Silvia Magalhães (1948-2007)”. In: CARLONI, Karla. TAVARES, Mariana. (coords. ). Enciclopédia Colaborativa Digital Mulheres no Brasil Pós-1889, Niterói: PPGH-UFF, v. 2, n.5 (2026). ISSN: 3086-6510 (on-line). Disponível em:https://enciclopediamulheresbrasil.com.br/vera-silvia-araujo-magalhaes-1948-2007/

Referências Bibliográficas:

AARÃO REIS, Daniel. A revolução faltou ao encontro: os comunistas no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990.

CODARIN, Higor. O MR-8 na luta armada: as armas da crítica e a crítica das armas. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2019.

_____. Vera Silvia Magalhães: revolucionar a vida, reconstruir o mundo. Jundiaí: Paco Editorial, 2025.

MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura militar: 1964-1968. Campinas: Papirus, 1987.

RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. 2. ed. São Paulo: Editora da UNESP, 2010.

ROLLEMBERG, Denise. Exílio: entre raízes e radares. Rio de Janeiro: Record, 1999.


Publicado

em

por

Tags: