Enciclopédia Colaborativa Digital

Mulheres no Brasil Pós-1889

Elvira Komel (1906 – 1932)

Elvira Komel aos 22 anos (1928)
Acervo do Brasiliana Fotográfica. 
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana
/handle/20.500.12156.1/6473

Elvira Komel foi a primeira mulher a exercer a advocacia no Fórum de Belo Horizonte, pioneira na organização político-militar de mulheres durante a Revolução de 1930 e a primeira eleitora a efetivamente exercer o voto no estado de Minas Gerais, em maio de 1929 – embora o jornal carioca A Noite (ed.  6106, 16/11/1928, capa) tenha estampado em destaque sua inscrição no ano anterior. Uma mulher à frente do seu tempo?  Não se pode afirmar isso. Afinal, as primeiras décadas do século XX viram surgir novas formas de organizações femininas e, em várias partes do mundo, as mulheres passaram a buscar um certo protagonismo no espaço público, exigindo direitos e participação, não sendo diferente no Brasil. 

Elvira nasceu no estado de Minas Gerais, em São João do Morro Grande (atual Barão de Cocais), no dia 24 de junho de 1906, e encontrou apoio e alicerces sólidos dentro de sua própria casa. Ela era filha de Marieta Correia Guedes, de tradicional família mineira, e de Ernest Komel, um engenheiro austríaco especialista em montagem hidráulica e usinas elétricas. Quando os Komel se mudaram para Viçosa em 1921 para que Elvira cursasse o ginasial, ficou evidente que a educação da jovem não seria negligenciada. 

Criada em um ambiente que valorizava a educação, Elvira encontrou no apoio paterno o impulso para alçar voos maiores. Foi assim que, em 1925, aos 19 anos, deixou Minas para ingressar na Faculdade Nacional de Direito, no coração político e intelectual do Rio de Janeiro. A escolha pela então capital federal não foi fortuita, pois representava o epicentro dos debates intelectuais e da efervescência política do país. Mais do que uma formação acadêmica, o Rio de Janeiro ofereceu a Elvira um laboratório de ideias e contatos. Ali, entre debates jurídicos e encontros feministas, sua trajetória deixou de ser apenas de estudos e passou a se confundir com a militância organizada. Na capital da República, a jovem mineira também entrou em contato direto com as correntes modernas do feminismo e articulou-se com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), fundada em 1922 e liderada por Bertha Lutz. 

A FBPF já mantinha uma filial em terras mineiras desde o ano de 1922. Contudo, em 1924, a presidente da Liga mineira, Berenice Prates, relatou que a filial, 

(…) em lugar de progredir, como prometia e era o nosso mais ardente desejo, tem tido frequentes colapsos e só não desapareceu ainda pela fé que deposito em dias melhores. […] Quase todas as […] que assinaram os estatutos da Liga […] jamais compareceram a uma única sessão e nem pagaram uma mensalidade sequer […]. (Carta manuscrita de Berenice M. Prates para Bertha Lutz, 03/09/1924, Arquivo Nacional – Fundo FBPF – Documentos Privados, Seção Administração, Correspondências AP 46, Vol. 2).

Bertha, em resposta a esse desabafo, relatou que tais problemas não estavam limitados “de modo algum ao estado de Minas, sendo comum ao país inteiro e pelo que me contam as companheiras de outros países, bastante generalizados na América Latina” (Carta datilografada de Bertha Lutz para Berenice Prates, 11/10/1924, Arquivo Nacional – Fundo FBPF – Documentos Privados, Seção Administração, Correspondências AP 46 – Dossiê FBPF). Bertha Lutz procurou, na sua arguição, amenizar o ocorrido acolhendo a dúvida da sua filiada e sugerindo que “não lamentemos as que nos abandonam, seriam um peso morto nas dificuldades iniciais”, pois para ela, 

o nosso movimento em prol do progresso feminino é um movimento fatalmente destinado a viver. […]. Criemos coragem com o que me contaram as pioneiras de outros países, algumas hoje velhinhas que conheci nos Congressos estrangeiros, de países onde o feminismo hoje triunfante começou muito débil, ainda mais débil que o nosso e venceu não apenas a inércia que tanto nos aflige, mas uma resistência, por vezes rude, por vezes irônicas sempre cruel. […]. Os primeiros passos são difíceis, mas havemos de vencer (Carta manuscrita de Berenice M. Prates para Bertha Lutz, 03/09/1924, Arquivo Nacional – Fundo FBPF – Documentos Privados, Seção Administração, Correspondências AP 46, Vol. 2) . 

Essas dificuldades continuaram a ser relatadas durante todo o ano de 1925 na liga mineira quando Elvira partiu para o Rio de Janeiro. Mietta Santiago, que assumiu interinamente a presidência dessa filial, escreveu para Bertha que “a liga mineira existe como alma, sem corpo […]. As sócias fugiram todas e só ficou a diretoria que depois de três sessões às quais somente elas (a diretoria) compareceu – findou-se a vida ativa da Liga” (carta manuscrita de Mietta Santiago a Bertha Lutz, 17/08/1925, Arquivo Nacional – Fundo FBPF – Documentos Privados, Seção Administração, Correspondências Cx. 29, Pac. 3, Vol. 3). 

Apesar da paralisa temporária do movimento em Minas, no Rio de Janeiro ele permanecia pujante e, antes de construir sua própria rota independente, o trânsito de Elvira pela cúpula da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino parece ter sido importante como formação e inspiração. Sob a liderança de Bertha Lutz, Komel entrou em contato com os debates do direito comparado internacional, bem como aprendeu a mecânica da organização institucional. 

No mesmo ano em que requereu seu alistamento eleitoral, em 1928, Elvira também passa a fazer parte da Federação. Correspondências encontradas no fundo FBPF, pertencentes ao Arquivo Nacional, atestam tais fatos.  Em carta endereçada a Bertha Lutz Elvira envia uma justificativa para a sua ação pioneira de requerer o título:

esperei até agora que a Mietta confesse essa grandiosa iniciativa, mas como esta minha brilhante colega não pretende, por enquanto, introduzir-se no corpo eleitoral, e não acho prudente que se perca, em B. Horizonte, esta feliz oportunidade, resolvi, eu mesma, requerer o meu título, pois que, nessa causa sublime que defendemos, pela libertação da mulher brasileira, deve predominar em cada uma de nós o desinteresse próprio e o interesse à vitória coletiva […] (carta manuscrita de Elvira Komel para Bertha Lutz, 04/07/1928, Arquivo Nacional, Documentos Privados, Fundo FBPF Seção Administração, Correspondências, Cx. 17, Pac.2, Dos. 2, Vol. 20). 

Mais tarde em outubro de 1928, Elvira escreveu para Carmem Portinho dizendo: “terei elevada honra e imenso prazer em fazer parte da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino” (Carta manuscrita de Elvira Komel para Carmem Portinho, 22/10/1928, Arquivo Nacional, Documentos Privados, Fundo FBPF Seção Administração, correspondências, Cx. 17, Pac.2, Dos. 2, Vol. 20). Assim, a partir de 1928, Elvira começa sua militância de fato no movimento organizado feminino. 

Embora sua colação de grau oficial tenha ocorrido no Rio de Janeiro no final de 1929, ela já cruzava as divisas de Minas Gerais em 1928, atuando como solicitadora acadêmica, ou, como descreveu o jornal O Paiz atuando na “profissão de advogada nos auditórios da capital mineira” (O Paiz (RJ), ed. 16514-16515, 6 e 7 janeiro de 1930, p.5). Nesse mesmo ano, ela já era reconhecida no periódico carioca A Esquerda (edição 230, 20/09/1928, capa) como “uma brilhante inteligência feminina, muito admirada”, no qual já era tida como líder do movimento feminino em Minas. Quando retornou a Belo Horizonte, em 1929, já não era apenas uma jovem bacharela. Era uma advogada combativa, pronta para ocupar os auditórios e transformar o espaço jurídico em palco de afirmação feminina.   

Ao fixar residência definitiva em Belo Horizonte, ela fez história:  tornou-se a primeira mulher a exercer a advocacia no Fórum de Belo Horizonte. Em uma sociedade que via com desconfiança a presença feminina nos ambientes jurídicos, Elvira não recuou. Conquistou imenso respeito pela combatividade nos auditórios e passou a usar a imprensa belo-horizontina como um prolongamento de sua banca de advocacia, publicando artigos em defesa da alfabetização e da educação formal para meninas e mulheres. Destacando-se na arena do Tribunal do Júri, Elvira exibia cabelos curtíssimos no estilo à la garçonne — uma afronta visual deliberada à sociedade tradicional.

 Suas redes de contato expandiram-se rapidamente na sua volta para as Minas Gerais. Durante sua estadia na capital mineira, estreitou laços com intelectuais como Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos, além de construir uma ponte com o Rio de Janeiro por meio de sua proximidade com Natércia da Cunha Silveira, primeira mulher a se formar em Direito no Rio Grande do Sul (em 1926), que atuava na capital federal. Ao retornar para Belo Horizonte, foi convidada a abrir uma filial da União Universitária Feminina (O Jornal (RJ), ed. 3362, 03/11/1929, p.16), demanda que inicia tão logo ali se instala. 

O ano de 1930 a encontra ainda vinculada à Federação. Mas a experiencia nos tribunais foi apenas o início. Com o advento da Revolução de 1930, Elvira percebeu que sua voz poderia ecoar além das salas de audiência. Foi nesse contexto que nasceu o Batalhão Feminino João Pessoa, marco de sua transição para a liderança política. 

Esse movimento marcou o início de sua caminhada independente, migrando da linha pacífica da FBPF para a ala revolucionária. Enquanto as lideranças da Federação, e Bertha em particular, pregavam a neutralidade partidária, Elvira Komel vislumbrou na convulsão política a oportunidade para a conquista da cidadania política feminina apostando no engajamento. Parece que Elvira levou consigo da FPBP a disciplina metodológica da organização, aplicando a burocracia de comissões, estatutos e relatórios no Batalhão. 

 O Batalhão Feminino desfila pelas ruas da capital federal
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 16/11/1930, p. 12.

Hino do Batalhão Feminino João Pessoa 

Compositoras: Ziná Coelho Junior e Celina Coelho. Fonte: Diário de Notícias, 15/11/1930, p.3

I
“De norte a sul – agita-se o Gigante!
É a marcha augusta de um Porvir triunfante!
A Pátria sofre! Sus! Brasileiro!
É João Pessoa o nosso Pioneiro!
Na terra altiva dos Inconfidentes,
Ergueu-se a estirpe audaz dos Tiradentes!
Jamais um bravo a injustiça escuta!
Irmãos, às armas! Vencei na luta!

II
Junto a Marilia e Heliodora,
Elvira Komel é ação!
Mulher-soldado – não chora!
Mulher-alma – é proteção.
Preparamos vossa farda
Não podendo combater!
Mas ficamos na vanguarda
Do civismo e do dever!

III
Arautos da Nova Aurora,
Bravos soldados, marchai!
Ouvindo as vozes de outrora!
De Minas, do Paraguay!
Gravai na vossa bandeira
O Batalhão João Pessoa,
– Minas é livre e altaneira!
E o Brasil não se agrilhoa!

A estratégia de Komel foi brilhante em sua execução burocrática e impacto visual. Ela organizou cerca de 8.000 voluntárias em comissões técnicas estritas (intendência, informações e assistência médica) e exigiu o uso de fardamentos militares. O Batalhão mantinha comissões assim denominadas: InformaçõesCruz VermelhaAmparo às Famílias dos CombatentesConfecção de Uniformes e Angariadora de Donativos. Elvira também organizou tarefas especificas para o Batalhão com o objetivo de auxiliar aos combatentes mineiros, como ela mesma descreveu: 

Foi no dia 5 de outubro que fundei o Batalhão Feminino João Pessoa, com o alto objetivo de auxiliar os nossos bravos conterrâneos que se encontravam na frente das operações. E logo instalamos então dois salões de costura, onde passaram a trabalhar noite e dia mais de 300 costureiras, confeccionando uniformes, lenços, ataduras e distintivos. Organizamos ainda corpos de enfermeiras, lavadeiras e comissões para outras funções. A nossa entidade conta atualmente com 25 filiais e possui um efetivo de 8000 jovens sendo mais de 1200 na capital e o restante em S. João D’El-Rey, Brejo das Almas, Bom Sucesso, Curvello, Nepomuceno, S. João Evangelista, Conceição, Brasilia, Spinosa, Itabirito, Ouro Preto, Patos, Bocayuna, Luz de Minas, Passa Tempo, Corintho, Patrocinio, Piranguy, Diamantina, Palmyra, Queluz, Virginipolis, Barbacena, Minas Novas, Uberaba, Bambuhy, S. Francisco, Arassuahy, Januaria, Uberlandia, Theophilo Ottoni, Villa Mesquita e Coração de Jesus. Os esforços de toda essa falange de nobres patrícias encerram um notável documento da moral brasileira (Diário de Notícias, RJ, 15/11/1930, p.3).

Em novembro de 1930, o Batalhão foi para a capital federal com o intuito de participar das comemorações da vitória e, na ocasião, fizeram um grande desfile cívico pelas ruas da cidade. Como se pode verificar nas imagens da época, o fardamento das associadas era uma regra, pois o estatuto estabelecia o uso obrigatório do uniforme durante atos públicos. O fardamento protegia a identidade civil e a classe social das integrantes, fazendo com que operárias de fábricas e mulheres ricas das elites mineiras ficassem visualmente idênticas nas marchas, unidas pela mesma causa.  Na ocasião, Elvira concedeu uma entrevista para o Diário de Notícias, na qual enfatizou:

 os homens de Minas deram o seu sangue pela felicidade da Pátria! Mas as mulheres do berço da liberdade também dedicaram a sua vida à causa nobre da Revolução. Na hora excepcional da reivindicação dos direitos dos cidadãos, as nossas patrícias integraram-se mais na vida nacional. E os gestos nobres, as atitudes dignificantes, as comovidas renuncias e os elevados sacrifícios que tiveram nos momentos mais trágicos da luta redentora, dignificaram ainda mais o espirito feminino de nossa raça (Diário de Notícias RJ, 15/11/1930, p.3).

O repórter que a entrevistou questionou qual seria o destino do Batalhão, uma vez que o conflito armado havia chegado ao fim, questionamento ao qual ela respondeu com as seguintes palavras: “Poderosa organização feminista que se tornou por força da Revolução Libertadora, nós iremos lutar pela reivindicação dos direitos da mulher.” (Diário de Notícias (RJ), 15/11/1930, p.3). E foi o que aconteceu, pois Elvira não desmobilizou suas bases, mas a transformou na Associação Feminina João Pessoa. Sabendo que o analfabetismo seria o argumento legal para impedir o voto feminino, a Associação passou a usar seus núcleos municipais para alfabetizar as mulheres, preparando-as para as urnas. Embora a hierarquia militar as colocasse em funções de assistência aos feridos, Elvira usou a tropa como uma gigantesca rede política e aproveitou as viagens que o Batalhão realizou por quase todo o estado de Minas Gerais para coletar assinaturas em massa de donas de casa para exigir que o futuro Código Eleitoral incluísse o voto feminino (TRE-MG, 2023). 

Um ponto a se destacar na trajetória de Elvira, foi a sua participação na época de estudante na FBPF. Esta parece ter lhe proporcionado tanto o amparo intelectual necessário para abrir portas em Minas Gerais e legitimar suas primeiras palestras radiofônicas quanto a apresentou a mulheres que, como ela, queriam ampliar os horizontes e conquistar novos espaços.  Afinal, em uma sociedade que isolava as mulheres dentro do espaço doméstico e sob a vigilância do Código Civil, a militância de Elvira só foi possível graças à construção de redes profundas de afeto, amizade e cumplicidade feminina. 

A amizade não era um mero detalhe social; era uma estratégia de sobrevivência e apoio emocional mútuo. Essa rede operava em múltiplos níveis: na esfera artística e cultural, a união com a maestrina Zinah Coelho garantiu ao movimento a potência de uma identidade sonora por meio do hino do Batalhão, blindando as marchas públicas contra o deboche dos homens. Na esfera pública, a cumplicidade com outras advogadas dissidentes, como Natércia da Cunha Silveira, servia de escudo jurídico e suporte nos tribunais culminando em uma agressiva campanha conjunta nos ministérios do Rio de Janeiro em janeiro de 1931, onde foram saudadas pela imprensa como “duas batalhadoras do ideal feminista” (A Noite (RJ), ed. 6877, 17/01/1931, capa da segunda edição). E na cúpula do Estado, a proximidade com Alzira Vargas (filha de Getúlio Vargas) garantia a Elvira uma valiosa interlocução nos bastidores, facilitando o acolhimento de suas demandas sufragistas junto ao próprio chefe do Governo Provisório. Juntas, essas mulheres transformaram o afeto em articulação política, provando que a solidariedade entre elas era a verdadeira força capaz de rachar a estrutura patriarcal da época.

O impacto do Batalhão abriu caminho para uma nova etapa: a organização de associações femininas e congressos. Aproveitando da notoriedade conseguida com o Batalhão Feminino, Elvira conseguiu reuniões diretas com os homens mais poderosos da República, incluindo ministros e generais. Em janeiro de 1931, ela e Natércia fazem uma verdadeira campanha na capital federal, visitando as redações de vários jornais e os principais nomes do novo governo na capital federal, em busca de apoio para a causa do sufrágio feminino (KARAWEJCZYK, 2019). Elas deixaram claro ao governo provisório que o apoio das mulheres à revolução cobraria o seu preço: a aprovação de forma definitiva do voto feminino no código eleitoral então em elaboração. 

Foi a ruptura definitiva com Bertha e a FBPF, tanto para Elvira quanto para Natércia que, em 30 de janeiro de 1931, funda outra associação no Rio de Janeiro, dissidência direta da FBPF, a Aliança Nacional de Mulheres. A rivalidade entre as associações se estabeleceu desde então e culminou na feitura de dois congressos femininos: um no Rio de Janeiro, patrocinado pela FBPF, e outro em Belo Horizonte, sob os auspícios da Associação Feminina João Pessoa, nas mesmas datas em junho de 1931. 

GAMA, Lélia Vidal Gomes da. Elvira Komel: uma estrela riscou o céu. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. 114 p.: il.
https://www.thaisqueirozleiloeira.com.br/peca.asp?ID=3235313

O Primeiro Congresso Feminino Mineiro reuniu delegadas de 51 municípios do interior de Minas Gerais e contou com a participação de mulheres de vários estados do Brasil. Tanto um quanto o outro congresso tiveram pautas parecidas e discutiram o futuro das mulheres no Brasil, destacando as questões trabalhistas, sociais e o reconhecimento do voto feminino (Excelsior (RJ), ed 41, jun. 1931, p.27 e A Noite (RJ), ed 7029, 22/06/1931, p2). 

Alguns meses depois da feitura do Congresso, Elvira concedeu uma entrevista para o jornal Correio da Manhã em setembro de 1931, no qual relatou que, em Minas Gerais, um novo partido feminino estava sendo formado: 

Mas não é uma entidade nova; houve apenas a fusão de duas agremiações já existentes: da Associação Feminina “João Pessoa” e a Legião Feminina, em uma corporação única, de feitio independente. […] Não é um partido com feitio político. É uma agremiação, destinada a defender as aspirações femininas, amparando e protegendo a mulher; trabalhar pelo alevantamento moral das sociedades e colaborar, também na realização do programa revolucionário (Correio da Manhã (RJ), ed. 11281,24/set/1931, p.5).

Uma das primeiras vitórias do movimento organizado feminino no Brasil ocorreu em 24 de fevereiro de 1932 com a aceitação do governo em estender o voto para as mulheres, nos mesmos termos que para os homens, com a aprovação do novo Código Eleitoral. A única diferença foi que o alistamento feminino foi considerado facultativo. Quando o Código Eleitoral de 1932 foi assinado, não foi um “presente” de Getúlio Vargas, mas o resultado de uma estratégica pressão dos movimentos feministas: a pressão diplomática de Bertha Lutz e pressão direta das associações de Elvira e Natércia.

Respaldada por essa vitória do sufrágio em 1932, Elvira iniciou articulações para uma candidatura ao Senado Estadual. Contudo, sua trajetória meteórica foi tragicamente interrompida em 25 de julho de 1932, aos 26 anos, quando ela faleceu subitamente. O laudo oficial apontou meningite, no entanto, a família Komel contestou publicamente o laudo na imprensa, afirmando que a causa real havia sido um aneurisma cerebral. 

Missa de Sétimo Dia em homenagem a Elvira Komel patrocinada pela Aliança Nacional de Mulheres. Fon-Fon, Rio de Janeiro, ed. 31, 30 de julho de 1932, p.34. 

O Palácio do Catete enviou coroas de flores oficiais e o movimento sufragista decretou luto, mas o verdadeiro tributo à sua memória consolidou-se nas urnas de 1933, quando as mulheres que ela mobilizou foram votar pela primeira vez. Hoje, seu pioneirismo é reconhecido em homenagens como a estátua inaugurada em Barão de Cocais em 2022, e a Comenda Elvira Komel, criada em 2025 pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e entregue anualmente pelo governador, todo dia 25 de julho (data de seu falecimento), para premiar mulheres que se destacam na defesa dos direitos humanos, equidade de gênero e combate à violência. Elvira Komel passou mesmo como um meteoro pelas ruas, pelos tribunais e pela história do país, mostrando que com coragem, luta e mobilização, as mulheres chegam onde quiserem.  

Excelsior. Rio de Janeiro, Junho de 1931. https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=19943

Autoras: Mônica Karawejczyk. Doutora em História pela UFRGS. Pesquisadora independente. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0131118539304762. Letícia Schneider Ferreira. Doutora em História pela UFRGS. Docente do IFRS Campus Bento Gonçalves. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9221388007222248

Como citar: KARAWEJCZYK, Mônica. FERREIRA, Letícia Scheider. “Elvira Komel (1906-1932)”. In: CARLONI, Karla. TAVARES, Mariana. (coords. ). Enciclopédia Colaborativa Digital Mulheres no Brasil Pós-1889, Niterói: PPGH-UFF, v. 2, n.5 (2026). ISSN: 3086-6510 (on-line). Disponível em:

Referências Bibliográficas: 

MINAS GERAIS. Lei nº 25.555, de 21 de outubro de 2025. Institui a Comenda Elvira Komel. Belo Horizonte: Assembleia Legislativa de Minas Gerais, 2025. Disponível em: https://www.almg.gov.br/legislacao-mineira/texto/LEI/25555/2025/. Acesso em: 25 jul. 2026. 

GAMA, Lélia Vidal Gomes da. Elvira Komel: uma estrela riscou o céu. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

GOMES, Maria Silvia Pereira Lavieri. Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel (1906 – 1932), a feminista mineira que passou como um meteoro. Rio de Janeiro: Brasiliana Fotográfica, Fundação Biblioteca Nacional, 17 ago. 2020. Disponível em: bn.gov.br. Acesso em: 25 jul. 2026. 

KARAWEJCZYK, Mônica. Mulher deve votar? O Código Eleitoral de 1932 e a conquista do sufrágio feminino através das páginas dos jornais Correio da Manhã e A Noite. Jundiaí: Paco, 2019.

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital (orgs.). Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE MINAS GERAIS (TRE-MG). Batalhão Feminino “João Pessoa”. Belo Horizonte: Centro de Memória da Justiça Eleitoral, 2023. Disponível em: tre-mg.jus.br. Acesso em: 25 jul. 2026. 

Periódicos consultados (Hemeroteca Digital Brasileira):

* A ESQUERDA. Rio de Janeiro, ano VII, ed. 230, p. 1, 20 set. 1928.

* A NOITE. Rio de Janeiro, ano XVIII, ed. 6106, p. 1, 16 nov. 1928.

* A NOITE. Rio de Janeiro, ano XX, ed. 6877, p. 1, 17 jan. 1931.

* A NOITE. Rio de Janeiro, ano XX, ed. 7029, p. 2, 22 jun. 1931.

* CORREIO DA MANHÃ. Rio de Janeiro, ano XXXI, ed. 11281, p. 5, 24 set. 1931.

* DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Rio de Janeiro, ano I, ed. 143, p. 3, 15 nov. 1930.

* EXCELSIOR. Rio de Janeiro, ed. 41, p. 27, jun. 1931.

* O JORNAL. Rio de Janeiro, ano XI, ed. 3362, p. 16, 03 nov. 1929.

* O PAIZ. Rio de Janeiro, ano XLVI, ed. 16514-16515, p. 5, 6-7 jan. 1930.


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