No Brasil do final do século XIX e início do XX, a despeito do racismo e das hierarquizações sociais, mulheres negras transgrediram os espaços sociais a elas destinados. Formaram-se como docentes e atuaram no segmento primário das escolas públicas. As mulheres das famílias Hemetério dos Santos e Silva Guimarães constituem importantes exemplos na cidade do Rio de Janeiro. Destacam-se os nomes de Alexandrina e Rufina de Brito; Rufina Vaz dos Santos, Coema e Gulnare Hemetério dos Santos; e Elvira Pilar da Silva Guimarães. As profissionais esmeraram-se para construir vidas meticulosamente alinhadas aos padrões exigidos das mulheres – mães – professoras. Tiveram as suas vidas atravessadas, nos âmbitos público e privado, por hierarquias de raça, de classe e de gênero, pois o mesmo cientificismo que pregava a “inferioridade racial” seguia alimentando a crença na “superioridade masculina”.
O processo de desumanização das pessoas escravizadas e dos seus descendentes não foi rompido a partir de nenhuma das leis emancipacionistas, nem mesmo através da Lei Áurea (1888) ou da primeira Constituição republicana (1891). A hierarquização entre brancos e negros seguiu sendo ressignificada, abrigando-se em concepções de raça ancoradas nas ciências biológicas de então. Teorias que se pretendiam científicas afirmavam que as diferenças entre brancos e não brancos (negros, indígenas, mestiços etc.) indicariam a superioridade dos primeiros e a inferioridade destes últimos. Segundo os estudos da antropóloga Lilia Schwarcz, no Brasil da década de 1870 houve o fortalecimento das teses e teorias evolucionistas e deterministas que buscavam explicar as diferenças internas, convertendo as diferenças sociais em variações raciais. Vinculados a diferentes instituições, os “homens das letras” eram também os “homens das sciencias”, que (re)elaboraram e divulgaram modelos deterministas raciais bastante populares no Brasil (1993).
Logo após o término legal do sistema escravista, em tempos que, para os grupos sociais hegemônicos, eram de Bélle Époque, “modernidade” e “cosmopolitismo”, a sociedade brasileira foi inundada por imagens estereotipadas acerca da população negra. Caricaturas, textos e charges publicadas em revistas satíricas animalizavam e ridicularizavam as características físicas e modos de falar associados a esses homens e mulheres. Em uma sociedade que buscava “civilizar-se”, as pessoas negras frequentemente eram associadas ao “atraso” e a uma gama de características físicas e culturais publicamente depreciadas. Nesse mesmo período, e de modo similar, práticas discursivas legitimavam a pretensa superioridade branca, de modo direto e indireto, construindo e difundindo imagens que transmitiam ideias de beleza, recato e bom comportamento – sempre associados às figuras brancas, sobretudo às femininas. Já as mulheres negras tinham os seus corpos objetificados e hipersexualizados.
Em contraposição à opressão racista, homens negros que pertenciam às camadas letradas, como o professor Hemetério dos Santos, investiam tempo e esforço intelectual opondo-se de modo veemente à racialização e às subsequentes tentativas de inferiorização da população negra do seu tempo. Esses esforços datam de período anterior ao fim da escravidão, como se pode ver nos empreendimentos de sujeitos que alcançaram visibilidade levantando as bandeiras da luta antiescravista e antidiscriminatória, tais como Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio – dentre outros.
Ao lado de alguns desses homens, vivendo ao mesmo tempo e na mesma espacialidade histórica, estavam as mulheres negras, professoras públicas primárias que portavam sobrenomes que conferiam alguma distinção aos homens de suas famílias. Os registros produzidos ao longo da vida e atuação desses próprios homens, assim como os estudos históricos posteriores, limitaram-se a citar os nomes das mulheres em referência a essas figuras masculinas. E quase nada informam sobre as experiências femininas de letramento e formação profissional, a existência (ou não) de uma produção intelectual autônoma, suas aspirações e projetos e as dificuldades encontradas para realizá-los. Assim, tais mulheres permaneceram, em grande medida, desconhecidas e silenciadas.
Diante das hierarquizações cotidianas, as professoras negras construíram vidas enquadradas à moralidade vigente. Essas mulheres e as suas famílias investiram esforços diários para serem e se mostrarem providas de honestidade. Esse foi o caminho seguro que permitiu a construção e a efetivação dos seus projetos de vida e de humanidade. Alcançar posições de alguma segurança e de prestígio social, rompendo bloqueios, custava bastante, portanto, era fundamental mantê-las acima de qualquer contenda que as descredibilizasse enquanto mulheres respeitáveis. Aliando estética e bom comportamento, as docentes negras pertencentes às famílias Hemetério dos Santos e Silva Guimarães construíram carreiras docentes que lhes conferiam respeitabilidade e segurança material.
Vidas e carreiras que estavam inseridas nas relações familiares – construídas de modo nuclear e extenso. Ao todo, as duas famílias formaram seis professoras: Alexandrina e Rufina de Brito; Rufina Vaz dos Santos, Coema e Gulnare Hemetério dos Santos; e Elvira Pilar da Silva Guimarães. Todas elas eram mulheres negras que viveram e atuaram no magistério entre fins do século XIX e os primeiros anos do século XX na cidade do Rio de Janeiro. As professoras Elvira Pilar e Rufina percorreram caminhos entrelaçados de formação e de exercício do magistério.
Rufina Vaz Carvalho dos Santos e sua amiga-irmã Elvira Pilar Guimarães da Silva, nascidas em 1861 e 1872, iniciaram os estudos em fins dos anos de 1880 na “Escola Normal da Corte”, ainda durante o governo Imperial, vindo a concluí-los somente em 1896 (“Escola Normal Livre”). Em 1891, elas passaram a integrar o magistério público municipal, sendo nomeadas “professoras adjuntas interinas” – o primeiro passo rumo à efetivação na carreira docente. Sete anos depois, em 1898, Elvira Pilar e Rufina chegavam ao topo da carreira, sendo promovidas ao cargo de “professora catedrática”. A promoção significava o aumento dos vencimentos, mas também conferia certa distinção dentro do grupo das professoras públicas primárias. Além disso, ser docente oficialmente diplomada e no topo da carreira significava não apenas o aumento do salário, mas, sobretudo, a ocupação de um lugar social que conferia alguma respeitabilidade e reconhecimento.
Durante vinte e cinco anos de trabalho, Rufina se dividiu entre as funções domésticas e o magistério, o que indica uma interlocução entre o desejo pelo ofício e a respectiva necessidade material. Os registros indicam que a família Hemetério dos Santos vivia de modo confortável, mas igualmente sujeita às intempéries materiais como qualquer família da classe trabalhadora. A relativa estabilidade econômica dependia dos rendimentos de todos que compartilhavam o mesmo teto, isto é, a vida confortável que a família porventura desfrutasse era resultado do trabalho incansável de mulheres e homens.
Elvira Pilar teve uma jornada profissional muito próxima à da amiga Rufina, recebendo a mesma nomeação em 1891, diplomando-se oficialmente em 1896. Foi designada professora adjunta para o 6° distrito em 1904, atuou como diretora na 3ª escola feminina do 3° distrito em 1910 e se tornou catedrática em 1912. Sua vida pessoal, contudo, teve rumo diferente ao da amiga Rufina. Elvira Pilar não se casou nem teve filhos. De certa forma, estaria liberada das cobranças quanto ao equilíbrio entre vida pública e privada, mas, por outro lado, era uma mulher negra que deveria viver totalmente por si própria.

Em diferentes épocas, as imagens de professoras públicas honestas e competentes circulavam pelas páginas de periódicos da cidade do Rio de Janeiro, indicando o sucesso alcançado por elas e suas famílias na construção meticulosa dessa imagem pública que se contrapunha frontalmente ao racismo vigente. Tal construção passava igualmente pela esmerada aparência estética apresentada ao público leitor – e certamente em seus cotidianos.
Em fotografias publicadas na imprensa, Rufina e Elvira se apresentam com olhar sério e compenetrado, além de bem vestidas e formais. Entram aqui as intervenções, certamente, dos autores desses registros – sobre os quais nada sabemos. Mas não devemos descartar as atuações de ambas na harmonização entre os elementos estéticos e comportamentais expressos nas duas fotografias. Tampouco podemos minimizar suas agências intelectuais nas escolhas feitas, mesmo inseridas em opressões de gênero e raça, quanto à veiculação da imagem pública de “professoras respeitáveis”.

Ser parte da classe professoral era gozar de uma reconhecida respeitabilidade conferida a todos os professores e professoras, algo que teve um peso enorme nas vidas de mulheres como Rufina e Elvira Pilar, assim como para suas famílias. Temos a combinação entre formas de distinção social relacionadas às camadas letradas, padrões de comportamento que visavam o controle das condutas femininas, moralidade cobrada dos professores e das professoras mulheres em especial.
Os estudos sobre a Primeira República avançaram bastante, rompendo com perspectivas centradas numa história da política oficial e de seus agentes diretos – homens brancos pertencentes às camadas dominantes da sociedade brasileira. Outros sujeitos históricos e suas experiências vêm sendo investigados, sendo possível ouvir as suas vozes e “contar” outras histórias. Deste modo, contar as histórias das professoras negras em meio aos processos de racialização e das opressões de gênero é também contar a história do Brasil republicano.
Autora: Luara Santos. Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Mestre em Relações Étnico-Raciais pelo Cefet/RJ. Professora da Educação Básica na Rede Pública de Ensino. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1859863913837966
Referências Bibliográficas:
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MÜLLER, Lúcia. As construtoras da nação: professoras primárias na Primeira República. Niterói: Intertexto, 1999.
SANTOS, Aderaldo Pereira. Arma da educação: cultura política, cidadania e antirracismo nas experiências do professor Hemetério José dos Santos. 2019. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e a questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
SILVA, Luara dos Santos. ‘Etymologias, preto’: Hemetério José dos Santos e as questões raciais de seu tempo (1888-1920). 2015. Dissertação (Mestrado em Relações Étnico-Raciais) – Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Rio de Janeiro, 2015.
SOIHET, Rachel. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890-1920. Rio de Janeiro: Forense, 1989.
