Enciclopédia Mulheres no Brasil Pós-1889

Maria Amélia Buarque de Holanda (1910 – 2010)

Acervo A Mística do Parentesco
https://www.parentesco.com.br/index.php?apg=arvore&idp=35964

Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim casou-se com Sérgio Buarque de Holanda, em 28 de dezembro de 1936, mesmo ano em que o historiador publicou seu livro mais famoso, Raízes do Brasil[1]. Ano também em que ele se tornou assistente do professor Henri Hauser (1866-1946) na cátedra de História Moderna e Econômica, e do professor Henri Tronchon (1877-1941), na cátedra de Literatura Comparada, ambas na brevíssima experiência da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade do Distrito Federal (UDF). Após o casamento, a família fixou residência na cidade do Rio de Janeiro, local onde o paulista Sérgio já morava e cidade de nascimento da carioca Maria Amélia. Ao casar, Maria Amélia, que nascera em 1910, tinha 26 anos. Com Sérgio, teria sete filhos. Referências à sua biografia destacam que ela era pianista e pintora[2], embora não se tenha notícias de que tenha algum dia, atuado, profissionalmente, nesses ofícios.

Naqueles já distantes anos de 1930, as jovens de classe média, como Maria Amélia, eram preparadas para o casamento. Cabia a elas especialmente o espaço doméstico. No entanto, na cidade do Rio de Janeiro, uma das mais cosmopolitas do país, mudanças se faziam sentir no cotidiano das mulheres que, cada vez mais, ocupavam o espaço público. Porém, apesar das mudanças citadas – e que se acentuariam ao longo da segunda metade do século XX no Brasil -, algumas mulheres mantiveram-se, aparentemente, seguindo o papel social que lhes cabia, isto é, atuarem “à sombra e à moda antiga”. Contudo, nos interstícios de liberdade e autonomia que lhes era possível, tornaram-se importantes interlocutoras na vida política e intelectual do país. Pode-se considerar que este foi o caso de Maria Amélia Buarque de Holanda.

Maria Amélia e Sérgio Buarque de Holanda.
Acervo O Globo. https://acervo.oglobo.globo.com/incoming/sergio-buarque-de-holanda-21178628

Sua vida não constitui uma excepcionalidade, contudo, também não representa uma biografia típica. Mesmo porque seria preciso refletir sobre a possibilidade de historiograficamente se considerar tipos ou modelos padronizados, quando são analisados dados e atos biográficos. Embora Maria Amélia tenha vivido “nos bastidores”, sua biografia foi alçada ao espaço público. Nas frestas que a ela se mostraram abertas, atuou e posicionou-se.

Nesse sentido, é possível compreender o depoimento de Antonio Candido no documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre a vida de Sérgio Buarque de Holanda. Segundo Candido, Maria Amélia foi uma das maiores colaboradoras da obra de Sérgio, auxiliando-o, inclusive, com pesquisas arquivísticas. Para exemplificar essa situação, ele narra, no documentário, que ela teria usado o automóvel da família, um fusca, e pilotado até a capital paraguaia, Assunção, apenas para coletar material para as pesquisas realizadas pelo historiador [3].

Há registros de que o auxílio de Maria Amélia à produção intelectual de Sérgio Buarque tenha começado muitos anos antes, ainda no tempo do namoro e noivado, quando ela teria, possivelmente, datilografado os originais da primeira edição do livro Raízes do Brasil. Essa atividade foi relatada pela própria Maria Amélia ao menos em dois momentos: primeiro em carta ao editor José Olympio, logo após a morte do historiador, na qual ela recordou que ele, dizia, nos idos de 1936: “precisamos terminar logo o livro[4]; e por ocasião do documentário já citado, realizado por Nelson Pereira dos Santos, quando ela repetiu informações sobre essa lembrança.

Esse auxílio pode ser comprovado também ao se comparar as letras dos manuscritos presentes no acervo do historiador. Entre os papéis do arquivo buarqueano, disponível no Siarq/UNICAMP, há compilações de fontes para os estudos de Sérgio Buarque, que, em muitos casos, possuem comentários e crítica documental não condizentes com a sua letra. Para confirmar o que estava descrito no inventário, André Furtado procedeu a comparações com documentos pessoais do casal Buarque de Holanda e percebeu que se tratava, de fato, de anotações de autoria de Maria Amélia[5].

Nesse sentido, é possível supor que apesar da atuação de Memélia, como era chamada pelos mais próximos, ter sido fundamental para a elaboração da obra intelectual de seu marido, e esse fato ser reconhecido por amigos e biógrafos da família, ela não exerceu uma atividade profissional autônoma.

Contudo, sua vida foi ganhando visibilidade e importância no espaço público a ponto de, no momento de sua morte, em princípios do século XXI, já centenária, Maria Amélia ser reconhecida como uma importante interlocutora da vida cultural e política do país.

Ela morreu, no dia seis de maio de 2010, em seu apartamento situado na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, no Rio de Janeiro. No dia seguinte ao de seu falecimento, o Jornal do Brasil publicou um obituário no qual destacava sua importância para a cultura brasileira. Intitulado “Cem anos de amor à cultura e ao Brasil,”[6] constatava que “Maria Amélia atua[v]ra à sombra e à moda antiga”. No entanto, afirmava o texto, “o bom gosto musical dos Buarque de Holanda” devia-se “aos ouvidos de Maria Amélia.”

Naquele momento, registrava-se já 28 anos desde a morte de seu marido, ocorrida em 1982. Sua família reunia nomes importantes da cena artística e intelectual brasileira. Nas páginas dos jornais, era destacada como a “matriarca dos Buarque de Holanda”, evidenciando que, apesar de, ao longo de sua vida, não ter assumido uma função profissional fora do espaço doméstico, ganhara projeção pública e sua opinião era ouvida de modo equânime a de importantes intelectuais do país.

Basta dizer que, alguns anos antes, ao fazer uma enquete sobre a opinião de diversos intelectuais sobre Fidel Castro, o Jornal do Brasil havia colocado a opinião de Maria Amélia, ao lado da de Ferreira Gullar, Nelson Werneck Sodré, Sérgio Arouca e Luis Carlos Prestes[7].

Poucos meses antes do obituário acima referido, em janeiro de 2010, sua festa de centenário também alcançara destaque nas páginas dos periódicos cariocas, com homenagens e felicitações de pessoas importantes dos espaços cultural e político brasileiros, sublinhando o prestígio de Maria Amélia Buarque de Holanda na cena pública do país. A festa, que contou com a presença do então Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, foi comemorada na casa de seu famoso filho Chico Buarque de Holanda.

A presença de Lula, então ocupando o cargo máximo do poder executivo do Brasil, obviamente ganhou amplo destaque nas páginas dos jornais. A amizade entre Lula e Maria Amélia vinha, naquele momento, já de longa data. Por esse motivo, o obituário publicado no Jornal do Brasil assinalava o engajamento político da família Buarque de Holanda e a admiração de Lula pela matriarca. Expressava que, no momento da morte de Maria Amélia, o presidente havia publicado uma nota oficial afirmando que ela

era uma pessoa que aliava ternura e firmeza, inteligência e preocupações sociais [e que] mesmo sendo filha de família tradicional, durante toda a vida lutou e apoiou as lutas pela liberdade e por uma sociedade mais igualitária[8].

A despeito do fato de que homenagens póstumas são frequentemente laudatórias, é possível afirmar que, embora atuando nos bastidores, Maria Amélia ganhara notoriedade pública. Ao morrer, era reconhecida como uma pessoa que deveria ser homenageada. De interior de sua casa, espaço principal de sua atuação, construiu relações sociais importantes que lhe permitiram protagonizar atuações na cena política e cultural do país. Como uma mulher do seu tempo que viveu, casou e criou filhos no período dos anos 40 a 60, Maria Amélia teve o ambiente doméstico como cenário principal de sua experiência, pois, como já se afirmou, nas famílias de classe média, em meados do século XX, as mulheres eram vistas, prioritariamente, como donas de casa, mesmo que suas atividades cotidianas ultrapassassem os afazeres domésticos.

Seu marido Sérgio Buarque foi um dos primeiros signatários do documento de criação do Partido dos Trabalhadores (PT), e Chico Buarque teve ação significativa em seu processo de constituição. Contudo, se conhece menos o fato de que do âmbito de sua casa, as ações de Maria Amélia também seriam muito importantes nesse processo de reorganização partidária dos anos 1980 no Brasil.

Festa de comemoração de 100 anos de idade Maria Amélia. Ex-presidente Lula a cumprimenta, 2010. Fotógrafo Ricardo Stukert. Acervo Biblioteca Presidencia da República. http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da-silva/galeria-de-fotos/fotos-de-viagens-nacionais-2010/presidente-lula-cumprimenta-dona-maria-amelia-buarque-de-hollanda-mae-de-chico-buarque-durante-festa-de-comemoracao-de-seu-aniversario/view

Conta-se que Memélia teria sido a “primeira pessoa a contribuir com a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989, com um cheque da pensão de viúva a que tinha direito[9].Essa atitude, aliada a outras ações, a tornaria, como se viu, amiga pessoal de Lula e sujeito perene de sua admiração.

Nesses momentos finais dos anos 1980, Memélia, já viúva, voltara a viver no Rio de Janeiro. Em seu novo apartamento continuara a cultivar amizades e a receber familiares. Dedicou-se também, por essa época, a organizar a documentação de seu marido que seria finalmente entregue ao arquivo da Universidade de Campinas, onde ainda hoje se mantém. Seria ainda de Maria Amélia o esboço biográfico de Sérgio Buarque de Holanda, entregue ao Siarq Unicamp como base para organização do acervo do historiador[10]. Sua atuação na construção memorialística e biográfica do intelectual, porém, não se encerraria ali.

Em 2006, a edição comemorativa de 70 anos de Raízes do Brasil, organizada por Ricardo Benzaquen de Araújo e Lilia Moritz Schwarcz, com textos de Antonio Candido, Alexandre Eulálio, Evaldo Cabral de Mello, Bolívar Lamounier, Antonio Arnoni Prado, Pedro Meira Monteiro e Robert Wegner, contou com um importante texto de Maria Amélia, “Apontamentos para a cronologia de Sérgio Buarque de Holanda”. O texto havia sido produzido alguns anos antes, com o objetivo de subsidiar a redação do prefácio que Francisco de Assis Barbosa escreveu para a obra Visión del Paraíso, publicada na Biblioteca Ayacucho.[11]

Consumava-se, assim, seu importante papel não apenas na vida de seu marido, mas também na construção de seu legado e memória deixados à posteridade, visto que seus apontamentos serviriam aos diversos trabalhos que, ulteriormente, iriam se referir à biografia do historiador Sérgio Buarque de Holanda. A vida de Maria Amélia Buarque de Holanda, assim como a de outras tantas “matriarcas”, mulheres de classe média que viveram e construíram grandes famílias em meados do século XX, evidencia, como afirma Roger Chartier,

que “nem todas as fissuras que fendem a dominação masculina assumem a forma de rupturas espetaculares nem se expressam sempre pela irrupção de um discurso de ruptura e de rebelião”.[12]

Maria Amélia viveu toda a sua vida no espaço da casa, cuidando de seus afazeres domésticos que promoviam bem-estar para a família, além de segurança cotidiana para os filhos e marido. Porém, do interior deste espaço, ganhou protagonismo público, reconhecimento, admiração, além de ter atuado para conformar parte da memória que se construiu sobre a trajetória de seu marido, ao constituir e organizar o acervo que serviria de fundamento para as futuras pesquisas sobre o historiador. O reconhecimento e a admiração alcançados por Maria Amélia Buarque de Holanda, e sua contribuição para a conformação de parte da memória que se construiria sobre o historiador Sérgio Buarque de Holanda fendem, certamente, a ideia de que as mulheres que dedicam sua vida ao espaço doméstico têm sua atuação pública mutilada.

Maria Amélia na residência do casal em Copacabana. Acervo O Globo. Fotografo: Marcelo Carnaval. https://acervo.oglobo.globo.com/incoming/sergio-buarque-de-holanda-21178628

Autora: Giselle Venâncio. Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFF. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4284493226597009

Referências Bibliográficas

CHARTIER, Roger. A história entre a narrativa e o conhecimento. In. À beira da falésia. A história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002

FURTADO, André. Sérgio Buarque de Holanda, historiador desterrado. Niterói: EDUFF, 2022.

HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

VENANCIO, Giselle. Notícia bibliográfica: breves considerações sobre Visión del Paraíso na biblioteca Ayacucho. In: FURTADO, André e VENANCIO, Giselle. Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda, seis décadas de um ensaio. Belo Horizonte: Fino Traço Editora, 2020, pp. 129 – 142.


[1] Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936

[2] Folha de São Paulo, 06 de maio de 2010 (Caderno Ilustrada).

[3] SANTOS, Nelson Pereira dos., 2003.

[4] Arquivo Livraria José Olympio Editora. Adm. Ced. Edt. 210. Pasta Correspondência. Carta de Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda a José Olympio, São Paulo – 9 dez. 1982. Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).

[5] Cf., entre outros exemplos, Série: Produção Intelectual. Subsérie: Anotações de Pesquisa. 852 – Informação de D. Pedro II, Imperador do Brasil tecendo considerações sobre a guerra do Paraguai e sobre medidas legislativas. s.l., 14 jul. 1868. 5p. (cm/MA) Pi 251/6:45 P22. Fundo SBH. Siarq-UNICAMP apud FURTADO, A., 2022.

[6] Jornal do Brasil, 07 de maio de 2010, p. A8.

[7] Enquete do Jornal do Brasil publicada na coluna “O que eles estão pensando”? A pergunta era: Fidel Castro é, como se autoproclama, o último socialista? Jornal do Brasil, 04 de fevereiro de 1990, p. 12 (Caderno Ensaios).

[8] Jornal do Brasil, 07 de maio de 2010, p. A8.

[9]  Jornal do Brasil, 07 de maio de 2010, p. A8.

[10] HOLANDA, Maria Amélia Alvim, 2006, p. 421.

[11] Sobre este prefácio e esta edição de Visão do Paraíso na Biblioteca Ayacucho, ver: VENANCIO, Giselle, 2020.

[12]  CHARTIER, Roger, 2002, p. 96.


Publicado

em

por

Tags: