
Crítica literária, ensaísta, romancista, tradutora. Também, mulher, esposa, avó, católica. Muitas foram as facetas de Lúcia Miguel Pereira; todas elas compondo sua figura complexa e singular. Seu sobrenome não deixa escapar aos leitores mais atentos sua origem familiar. Filha do médico Miguel da Silva Pereira e de Maria Clara Tolentino Pereira, Lúcia nasceu na cidade de Barbacena, em Minas Gerais, no ano de 1901, mas cresceu na então capital federal, o Rio de Janeiro.

Sua trajetória pessoal e profissional constitui um significativo ponto de análise para observarmos a atuação das mulheres intelectuais na primeira metade do século XX no Brasil. Em meio às movimentações políticas e culturais da década de 1920, a jovem Lúcia Miguel Pereira, que pertencia aos setores mais abastados, composto majoritariamente por pessoas brancas, frequentou uma tradicional instituição de ensino confessional católica, o Colégio Sion, localizado no bairro do Cosme Velho, local onde aprendeu o francês como segunda língua. No final da década de 1920, Pereira foi convidada a fazer parte do periódico Elo (1927-1929), dirigido por Alceu Amoroso Lima, um dos mais importantes intelectuais ligados ao movimento católico daquele período. Juntamente com outras colegas do Sion, Pereira iniciou assim sua vida no mundo das letras. Durante esse mesmo momento lecionava na Missão da Cruz, uma escola mantida pelo próprio colégio Sion, voltada para crianças de baixa renda.
Extrapolando o público católico, em 1931, Pereira passou a contribuir para uma outra revista, o Boletim de Ariel, de responsabilidade dos editores Gastão Cruls e Agrippino Grieco. Este periódico, que surgiu inicialmente com o objetivo de divulgar as publicações da editora Ariel, tornou-se um dos principais veículos de divulgação de crítica literária do período. E, tanto editora como revista, agregaram importantes nomes do campo literário como Octavio de Faria, Jorge Amado, José Lins do Rego, Octavio Tarquínio de Souza e a própria Lucia Miguel Pereira.

No ano seguinte, Lúcia passou a assinar uma seção no periódico, também católico, A Ordem, intitulada “Chronica Feminina”. Como primeira intelectual mulher a contribuir para a revista de forma contínua, a autora articulava assuntos referentes à questão das mulheres – como a conquista do voto, feminismo, educação – sob o ponto de vista católico. A presença da literata na revista é reveladora de que até mesmo para setores da sociedade vistos como mais conservadores, não seria mais possível ignorar as demandas feministas.

Acesso em: 13 de Nov. de 2025
Tão impossível ignorar que Pereira, além desses dois periódicos especializados, foi figura constante durante as décadas seguintes em publicações como Correio da Manhã e O Estado de S. Paulo. Destaco a especial atenção que a crítica literária ofereceu à obra da escritora britânica, Virginia Woolf. Pereira, em um importante trabalho de mediação junto ao público, apresentou o conjunto da obra woolfiana aos(as) leitores(as) destacando temáticas como o movimento modernista, feminismo e tradição literária. Não só Woolf se tornou motivo sob sua caneta, outras escritoras como Jane Austen, Elizabeth Gaskell, María Luisa Bombal, Rosamond Lehmann e Gertrude Stein foram, igualmente, objetos de análise de Pereira.
Enquanto se consolidava como crítica literária ao longo da década de 1930, Pereira também se lançava como romancista. Suas obras ficcionais – Maria Luísa (1933), Em Surdina (1933), Amanhecer (1938) e Cabra Cega (1954) -, na contramão do romance social, característico desse período, possuíam um caráter muito mais intimista, focados em famílias de classe média urbana e tendo como protagonistas jovens mulheres brancas. Essas personagens irão atravessar, cada qual à sua maneira, um processo de transformação interior que as fará questionar valores, papéis e posições sociais vistos até então como corretos e cristalizados. Essa temática esteve em consonância com as mudanças em vigor para as mulheres da sociedade brasileira, em especial àquelas pertencentes aos estratos médios da sociedade ao qual a própria escritora pertencia.

Além da crítica literária e dos romances, Lúcia Miguel Pereira foi uma renomada historiadora da literatura, produzindo três obras fundamentais para pesquisadores do campo, são elas: Machado de Assis: estudo crítico e biográfico (1936); A vida de Gonçalves Dias (1943); História da Literatura Brasileira: prosa de ficção de 1870 a 1920 (1950). O primeiro desses títulos, além de ter se tornado obra fundamental para os estudos machadianos, recebeu um dos mais importantes prêmios literários do período, entregue pela Sociedade Felipe d’Oliveira. A intelectual, atuou também como tradutora e escritora de livros infanto-juvenis. Entre seus maiores trabalhos de tradução estão Meditações (1957), de Marco Aurélio, e o último tomo da obra monumental de Marcel Proust, O tempo redescoberto (1956), este publicado pela Livraria do Globo. Entre suas obras de literatura infanto-juvenil destacam-se A fada menina (1939) e A floresta mágica (1943).

Acesso em 13 de Nov. de 2025

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Companheira de Octávio Tarquínio de Souza desde a década de 1930, o casal oficializou a união no Uruguai em 1940, em função da condição de desquitado de Octávio. Juntos, cuidaram do neto de Tarquínio de Souza, Antônio Gabriel Fonseca, proveniente de seu primeiro matrimônio com a escultora Maria Marins. A residência do casal, no bairro das Laranjeiras, era um espaço de convívio e encontro entre amigos e intelectuais do período. O casal faleceu drasticamente em um acidente aéreo nas redondezas do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em 22 de dezembro de 1959.
No testamento de Lúcia havia uma cláusula que estipulava que na ausência de Tarquínio de Souza, todos os seus escritos inéditos deveriam ser queimados, destruídos. Seu marido seria o único editor que confiaria após sua morte. Com o fim chegando ao mesmo tempo para ambos, o desejo da intelectual foi acatado, impedindo qualquer publicação de novos textos da escritora; inclusive um ensaio histórico sobre a condição feminina no Brasil, que estava em desenvolvimento.
A trajetória de Lúcia Pereira – tanto a pessoal quanto a profissional – é reveladora não apenas de uma história pessoal instigante; mas, também, de um profundo processo de transformação social no qual setores femininos buscaram por outros papéis e espaços de atuação que não aqueles que lhes eram historicamente atribuídos.

Autora: Gabriela Monteiro da Costa. Doutoranda em História Social no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e bolsista CNPq. Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/3924506485308133.
Referências Bibliográficas:
COUTINHO, Fabio. Biografia Resumida de Lucia Miguel Pereira. Biblioteca Octavio Tarquínio de Sousa e Lucia Miguel Pereira. Disponível em: https://octavioelucia.com/otavio-tarquinio-de-sousa/lucia-miguel-pereira/. Acessado em 08 de agosto de 2025.
PEREIRA, Lucia. Escritos da Maturidade: seleta de textos publicados em periódicos (1944-1959). Rio de Janeiro: Graphia/Fundação Biblioteca Nacional, 2005.
PEREIRA, Lucia. Nota da Editora. In: História da literatura brasileira: prosa de ficção de 1870 a 1920. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1988.
PIRES, Paulo Roberto. Leitora incomum. Quatro cinco um, 26 de novembro de 2019. Disponível em: https://quatrocincoum.com.br/colunas/c/leitora-incomum. Acessado em 08 de agosto de 2025.
SANTOS, Juliana. Ficção e crítica de Lucia Miguel Pereira: a literatura como formação. Tese (doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras, Porto Alegre, 2012, 235f.
Intelectuais Brasileiros | Lúcia Miguel Pereira (12 de dezembro de 1901 – 22 de dezembro de 1959). BN Digital, 21 de dezembro de 2021. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/artigos/intelectuais-brasileiros-lucia-miguel-pereira-12-de-dezembro-de-1901-22-de-dezembro-de-1959/. Acessado em 08 de agosto de 2025.
