Estrella D’alva Benaion Bohadana foi uma militante política brasileira, conhecida por sua atuação junto ao movimento estudantil e operário durante a ditadura militar no Brasil, bem como, por ter sido vítima de tortura e prisão ilegal por parte dos órgãos de repressão. Nascida na cidade de Manaus em 30 de março de 1950, Estrella é a quarta filha de Phryné Benaion Bohadana e Elias Bohadana, judeus sefarditas descendentes de famílias oriundas da Península Ibérica que, perseguidas pela Inquisição no século XVII, migraram para o norte da África e, posteriormente, para o Brasil no século XIX. Em 1953, sua família mudou-se para Belém, buscando melhores condições educacionais para seus filhos. Posteriormente, em 1962, fixaram residência no Rio de Janeiro, à época, Estado da Guanabara, impulsionados pela possibilidade de acesso à educação superior.

Ainda muito jovem, aos 12 anos, Estrella ingressou no Colégio Pedro II, campus Humaitá, onde deu início à sua militância política. A instituição, conhecida por seu ambiente democrático e politizado, foi o espaço onde Estrella passou a integrar atividades culturais e políticas, como grupos de teatro, cineclubes e grêmios estudantis. O envolvimento no movimento secundarista após o golpe civil-militar, em 1964, levou-a a participar ativamente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (AMES). Em 1967, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Estrella demonstrava já nesse período uma preocupação especial com a mobilização direta da classe trabalhadora, recusando a ideia de uma transformação social conduzida exclusivamente por elites ou intelectuais.
Em 1969, insatisfeita com os rumos políticos do PCdoB e buscando um projeto mais coerente com suas convicções revolucionárias, desligou-se do grupo e passou a integrar a Organização Política Operária (POLOP). Paralelamente, mudou-se para o município de Barra do Piraí, no Sul Fluminense, onde iniciou o curso de arquitetura, com a intenção estratégica de aproximar-se de polos operários como: Volta Redonda com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de Barra Mansa com a Votorantim e dos ferroviários da própria cidade de Barra do Piraí.
Sendo a única militante integrante dos quadros da POLOP vivendo no Sul Fluminense, Estrella rapidamente assumiu um papel de destaque na organização. A partir de 1970, foi orientada pela organização a liderar a construção de uma Frente Operária com o objetivo de articular um movimento de esquerda em torno do documento central do grupo nomeado como Programa Socialista para o Brasil.
A POLOP reconhecia a importância de se criar frentes de esquerda comprometidas com a realização da Revolução Socialista. Esses grupos de ação deveriam desenvolver um trabalho de politização junto às massas, com o intuito de atrair o apoio popular necessário para viabilizar a deflagração de uma insurreição armada futura. Entendendo o cenário que a cercava e inspirada nas diretrizes programáticas da organização, Estrella passou a se dedicar em uma aproximação com os principais setores envolvidos nas lutas sociais no Sul Fluminense. A militante percebeu rapidamente que, diante da dura repressão enfrentada pelos movimentos sociais e sindicatos, a Igreja Católica havia assumido um papel de liderança na organização dos trabalhadores.
Diante disso, um dos principais apoios firmados pela jovem se construiu a partir da Igreja Católica local, em especial da Juventude Operária Católica (JOC) e do bispo Dom Waldyr Calheiros, importante figura de resistência à ditadura militar. A escolha desse núcleo se baseou na percepção de Estrella quanto à relevância do trabalho de base promovido pela JOC, que vinha se destacando em âmbito nacional por suas ações progressistas em defesa das classes populares. Em paralelo, estabeleceu contato com jovens participantes de grupos de teatro e com a juventude intelectual local, formando um segundo eixo de articulação. Por fim, construiu vínculos com militantes de outras organizações já atuantes na região, ampliando a perspectiva de construção de uma ação política mais unificada.
A atuação da Frente Operária envolvia panfletagens, rodas de discussão, encontros políticos e tentativas de publicação de jornais operários. Desse modo, apesar de não desenvolver ações armadas, suas atividades passaram a ser monitoradas pelos órgãos de repressão. Entendida como a grande liderança subversiva da região, Estrella Bohadana, em 17 de novembro de 1970, foi presa no Estado da Guanabara por agentes do 1º Batalhão de Infantaria Blindada (1º BIB). Levada de volta ao Sul Fluminense, foi brutalmente torturada com choques elétricos, socos, pau de arara e o chamado “telefone”, vivenciando o lado mais cruel da repressão. Transferida ao DOI-CODI no Rio de Janeiro, após duas semanas, enfrentou um tipo de tortura mais “técnica”, que evitava deixar marcas visíveis, porém, levava a vítima ao seu limite fisico e psicológico. A violência extrema resultou em um aborto e na perda temporária dos movimentos das pernas. Após pressão de companheiras de cela foi internada no Hospital Central do Exército, de onde retornou ao 1º BIB e continuou sendo violentamente agredida.
A repressão contra os membros da Frente tinha particularidades marcantes, sobretudo porque muitos deles possuíam ligação com a Igreja Católica. Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade, Estrella relatou um episódio ilustrativo dessa prática, conhecido como “Procissão”em que membros da Frente Operária foram forçados a caminhar ao redor de um lago, com fios elétricos enrolados nos corpos, segurando velas acesas e cantando a música “Jesus Cristo, eu estou aqui…”. A cena vivenciada por Estrella demonstra como a repressão se utilizava de diferentes ferramentas de violência psicológica e simbólica.
Em estado de exaustão física e psicológica, Estrella simulou uma tentativa de suicídio para interromper as sessões de tortura. Mesmo hospitalizada, foi novamente punida, tendo os pulsos suturados sem anestesia. Em seguida, foi levada ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde passou a ser oficialmente fichada como prisioneira política, um passo importante no reconhecimento legal de sua condição.
Em janeiro de 1971, foi transferida para o Instituto Penal Talavera Bruce, localizado em Bangu. Chegou ao presídio em condições físicas extremamente frágeis, quase sendo recusada pela diretora da instituição. Diferentemente de outras companheiras detidas, que ficaram em celas coletivas, a jovem foi colocada em uma solitária. As celas solitárias localizavam-se no pavilhão II, porém, em uma galeria direcionadas às presas comuns consideradas de alta periculosidade.
Na chegada de Estrella, já estavam isoladas na galeria, as militantes Jessie Jane e Dulce Pandolfi. O motivo do isolamento não foi explicado oficialmente, mas relatos sugerem que o regime procurava separar presas políticas consideradas “irrecuperáveis” segundo uma suposta avaliação psicológica da repressão.

A experiência da prisão em Talavera Bruce evidenciou as especificidades da repressão contra mulheres, especialmente no tocante ao apagamento da identidade, à repressão ao corpo feminino e à anulação da subjetividade feminina. Questões como a maternidade e o controle sobre o tempo apareciam de forma recorrente nos relatos de Estrella. Em suas memórias, a jovem narra como a manipulação do ambiente, como luzes acesas ininterruptamente e o controle de visitas, visava desorientar e fragilizar psicologicamente as presas. Ainda assim, resistiu por oito meses em total isolamento. Estrella foi levada a julgamento pela Justiça Militar, tendo o processo posteriormente anulado em 16 de julho de 1971.
Após ser colocada em liberdade, Bohadana seguiu militando pela POLOP em São Paulo, o que resultou em uma nova prisão, desta vez no Presídio Tiradentes. Depois de experienciar o pior do sistema prisional, passou a atuar politicamente por outras vias. A maternidade e sua formação em Arquitetura a levaram a trabalhar com projetos sociais em comunidades, e mais tarde, ao ingressar no curso de Filosofia, encontrou na educação um novo campo de militância, utilizando o ensino como forma de resistência, reflexão e memória.
Os traumas físicos e psicológicos causados pela tortura deixaram marcas profundas: perdeu parte dos tendões das pernas, desenvolveu fobias e insônia. Mesmo assim, enfrentou a dor de forma consciente, optando por compartilhar sua história como forma de resistência e reparação. Parte desse processo de cura se deu por meio das Clínicas de Testemunho, espaços coletivos que acolhiam pessoas vítimas da repressão e promoviam a reconstrução de suas identidades através da escuta, da solidariedade e do afeto.
Falecendo prematuramente em 11 de maio de 2015 no Rio de Janeiro, Estrella D’alva Bohadana tornou-se uma das vozes que compõem a memória da resistência à ditadura no Brasil. Seus depoimentos, apresentados na Comissão Municipal da Verdade de Volta Redonda e em produções documentais como Torre das Donzelas e Que bom te ver viva, ajudaram a denunciar as práticas de tortura e a recuperar a história das mulheres perseguidas politicamente pelo regime. Sua trajetória representa não apenas a luta por justiça social e democracia, mas também a denúncia da violência de gênero institucionalizada.1
1. Ver: BOHADANA, Estrella Dalva. Estrella Dalva Bohadana (testemunho da verdade). Volta Redonda. Comissão Municipal da Verdade de Volta Redonda, 2014. 31p. https://www.youtube.com/watch?v=N00JKR2eH7c. Acesso em 01/09/2025. Que bom te ver viva. Direção de Lúcia Murat. Rio de Janeiro. Taiga Filmes & Vídeos, 1989 (97 min).Estrella e Lucia (Episódio 5). Mulheres em luta. Direção: Susanna Lira. Produção: Modo Operante Produções. Brasil, 2014 (35 min).
Autora: Maria Clara Bandeira Ortiz de Carvalho. Mestre em História Social pelo Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5711723512447180
Referências Bibliográficas
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