
Filha dos poetas Gilka Machado e Rodolpho Machado, a bailarina e intelectual Heros Volúsia Machado nasceu em 1º de junho de 1914, no antigo bairro de São Cristóvão, na então capital do país, Rio de Janeiro. Ao iniciar a carreira artística, suprimiu a primeira letra do nome, passando a se chamar Eros, em alusão ao deus do amor na mitologia grega.
Seu primeiro contato com a dança acadêmica ocorreu na Escola de Bailados do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, fundada em 1927, sob a direção da russa Maria Olenewa.
Em 6 de setembro de 1929, Eros já figurava na imprensa como integrante do elenco da opereta A Montaria, do espanhol Jacintho Guerrero, encenada no Teatro Apollo, em São Paulo. Contudo, ao que tudo indica, a estreia da bailarina, como representante da dança nacional, deu-se em 28 de setembro de 1929, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, durante a “Festa da Primavera”, organizada pela Mocidade Feminina Carioca com o objetivo de celebrar a nova estação do ano e homenagear o presidente da República, Washington Luiz.
No final do ano seguinte, a jovem, já identificada com o nome artístico, aparecia nos jornais como integrante da Companhia Regional Brasileira. Em 1º de janeiro de 1931, estreou no Teatro Cassino (RJ) as peças A Voz do Violão e O Disco no Sertão, ambas de autoria do compositor e músico Freire Júnior, um dos maiores autores de revistas musicais da época.

O primeiro recital de danças apresentado exclusivamente por Eros ocorreu em 10 de abril do mesmo ano, no Teatro João Caetano. Tratava-se de uma homenagem ao então interventor da capital, Adolpho Bergamini, designado pelo governo provisório instituído após a Revolução de 1930. Foram exibidas danças expressionistas, como Ânsia Azul, com música de Debussy, e números inspirados na cultura popular, como lundu, jongo e samba. Destacou-se o número Amor de Iracema, baseado no romance de José de Alencar, com composição de Antônio Peixoto Velho, escrita especialmente para a bailarina.
Sertaneja também constituiu outro êxito da noite, encenado sobre a composição homônima de Basílio Itiberê da Cunha. Produzida em 1869, a peça musical é considerada a mais antiga e significativa obra pianística de concerto brasileira, distinguindo-se igualmente pelo uso de melodias folclóricas nacionais.
Eros possuía grande plasticidade. Seus movimentos intensos, livres e espontâneos foram registrados por periódicos da época e estão nas fotografias presentes em seu livro de memórias. Percebe-se um corpo pequeno que se agigantava com movimentos que rompiam profundamente com as linhas retas da estética do balé clássico, referência maior da dança européia.

A bailarina frequentemente se apresentava descalça, com longos cabelos soltos e esvoaçantes, trajando vestimentas ricamente ornadas com adereços ou, no caso das danças expressionistas, túnicas. Os figurinos eram temáticos. Em Macumba, por exemplo, utilizava um bustiê confeccionado em contas e uma tanga adornada com franjas que realçavam os movimentos dos quadris. Pernas e abdômen à mostra conferiam-lhe, ora um ar de sensualidade, ora de primitivismo, características que se mesclavam no corpo da jovem bailarina. Em Dança Selvagem, Eros executava movimentos embrutecidos e primários, registrados no documentário da década de 1940 As Rainhas do Bailado.
O corpo moreno da bailarina representava, por um lado, o desejo de valorização da mescla étnica e cultural que daria origem à brasilidade; por outro, e não de forma contraditória, indicava a possibilidade de construção de um passado e de um presente sustentados pela ideia de unidade, excluindo o elemento negro. Assim, sua imagem sofreu apropriações de acordo com as aspirações da própria artista, do movimento modernista e do espírito político do governo Vargas.
Em agosto de 1931, na Escola Nacional de Belas Artes, Eros ilustrou a conferência Dansas do Brasil Antigo, ministrada pelo literato e historiador Luiz Edmundo Mello Pereira da Costa. Reconhecido por sua dedicação à história do Rio de Janeiro, o intelectual definia a dança como verdadeira expressão da cultura e, consequentemente, do grau civilizatório de um povo.
Outro admirador de Eros foi um dos mais importantes dos representantes do modernismo brasileiro, Mário de Andrade. Para o escritor, a bailarina dava vida e, ao mesmo tempo, atualizava o passado das danças brasileiras. Seria a encarnação da alma do povo, representando a união de uma cultura fragmentada e dispersa pelo território nacional.
Em novembro de 1933, após suas primeiras apresentações para o grande público, a bailarina estreou no Teatro Cassino um novo espetáculo. Em Dança Selvagem, trazia à cena “movimentos bárbaros, autênticos dos selvagens brasileiros”.

Apesar do sucesso, os círculos mais conservadores rejeitavam os elementos populares estilizados pela arte de Eros, que tanto entusiasmavam as vanguardas modernistas e os intelectuais nacionalistas. Consideravam grotescas as danças de matriz cultural negra ou indígena. O apreço por tais representações, ainda que estilizadas em um corpo lido como branco, era interpretado como retrocesso no processo civilizatório.
As diferentes posições revelavam as disputas e as divergentes concepções do que seria “legitimamente popular” entre as correntes modernistas e seus respectivos projetos políticos, que iam dos mais conservadores e autoritários aos mais progressistas. Mesmo diante das críticas, a bailarina representou aos olhos de muitos de seus contemporâneos a idealizada mescla racial e étnica em um corpo entendido como branco. Nele residiam também os limites do discurso racial brasileiro predominante.
Segundo as memórias da artista, seu “amor à Terra” seria autodidata na pesquisa e na criação. Todavia, podemos afirmar que a sua experiência integrava um amplo e heterogêneo movimento de artistas e intelectuais voltados ao “olhar para dentro” da cultura nacional. Além de diálogos significativos com a produção de importes representantes do balé moderno ocidental.

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Acesso em: 13 de nov. de 2025.
Ao longo da carreira, os bailados de Eros contaram com músicas de compositores brasileiros contemporâneos e de gerações anteriores, todos caracterizados pela inspiração em temas nacionais. Entre eles destacam-se Villa-Lobos, Zequinha de Abreu, Nepomuceno e Frutuoso Vianna. Sua produção artística resultou em parcerias notáveis com maestros e compositores como J. Otaviano (João Octaviano Gonçalves), da Escola Nacional de Música, e Antônio Peixoto Velho, autor de sambas, polcas e choros.
No início da década de 1930, a residência da prestigiada poetisa Gilka Machado, mãe de Eros, transformou-se em ponto de encontro de artistas, muitos ainda jovens. Ali realizavam-se festas, exposições, saraus literários e apresentações de dança, com o propósito de promover a arte nacional.
A bailarina também participou de montagens do chamado “teatro sério”, sobretudo de peças produzidas pelo dramaturgo Renato Viana, no Theatro Escola, que recebera da prefeitura a concessão do Teatro Cassino. Viana reivindicava para o teatro “[…] os seus direitos políticos, rítmicos e picturais, pela influência do Ideal da Música, da Dança e da Cor, fundidos na obra dramática”. Tratava-se de uma arte total e politicamente engajada, afinada com os ideais modernistas. No projeto Eros integrou o elenco da peça Sexo, reflexão desafiadora sobre a moral da sociedade. Tratava-se segundo a imprensa da época da adaptação de um texto permeado de temas freudianos produzido por um médico.
Em 1936, a bailarina solicitou ao Instituto Cultural Argentino-Brasileiro, sediado no centro do Rio de Janeiro, apoio para promover espetáculos em Buenos Aires. Em 10 de julho, embarcou, acompanhada da mãe, no vapor Estern Prince para realizar duas apresentações na capital portenha.
Um dos grandes momentos da bailarina ocorreu em 1937. A Comissão do Teatro Nacional, organizada pelo Ministério da Educação e Saúde Pública (Mesp), promoveu um espetáculo exclusivo da bailarina no Theatro Municipal: Bailados Brasileiros. A apresentação integrava a agenda de grandes eventos promovidos pelo ministério naquele ano, como a ópera O Guarani, apresentada, pela primeira vez, em português.
O Mesp desempenhou papel fundamental na elaboração e aplicação do ideal modernista, aliado ao nacionalismo que buscava unir nação e povo sob o projeto de modernização. Durante a gestão do ministro Gustavo Capanema (1934-1945), destacou-se a atuação de intelectuais e artistas comprometidos com a construção de um Brasil moderno.

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A arte de Eros, articulada a seus estudos sobre a cultura brasileira, despertou o interesse do regime varguista. Seu “corpo mestiço” simbolizava a união entre o passado primitivo, a natureza exuberante e as tradições populares. A artista e intelectual circulava tanto nas redes de sociabilidade dos representantes cariocas da modernidade cultural quanto entre os articuladores do novo Estado.
A estreia de Bailados Brasileiros ocorreu em julho de 1937, quatro meses antes do golpe do Estado Novo. Foram apresentados números já conhecidos do repertório da bailarina, bem como inéditos, como No terreiro de Umbanda e Congada. A composição deste último, do maestro Francisco Mignone, remetia ao folguedo de origem africana em que danças, cantos e teatralidade simulam o coroamento de um rei ou rainha do Congo. Eros também dançou ainda Lundu; No terreiro de Umbanda; Batuque, de Alberto Nepomuceno; Banzo, de Hekel Tavares; e Cateretê, também de Mignone.

Em 1938, Eros retornou aos palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro escalada para o espetáculo comemorativo do cinquentenário da Abolição da Escravatura. O decreto-lei da Presidência da República designava o Mesp como responsável por organizar as atividades nas principais capitais. A celebração, com grande valor simbólico para o governo, destacava a contribuição da cultura africana para a formação da identidade nacional, ao mesmo tempo em que buscava apagar o passado da escravidão e exaltar a construção do “novo trabalhador”, peça central do Estado corporativista.
Sintetizando suas experiências e ideias, em 20 de julho de 1939, Eros proferiu, no Teatro Ginástico, uma palestra em que apresentou estudo sobre a dança brasileira, posteriormente publicada em livro. Compartilhava do “mito das três raças”, marca do discurso estadonovista, e, nesse sentido, definiu as danças que considerava representativas da nacionalidade, ao mesmo tempo em que evidenciavam as particularidades regionais.
Em 1938, Capanema convidou Eros para assumir a direção do Curso de Ballet do Serviço Nacional de Teatro (SNT), criado em dezembro de 1937 e subordinado ao Mesp. O SNT tinha como missão a “elevação e edificação espiritual do povo” por meio das artes cênicas. O curso de balé, gratuito e sediado no Teatro Ginástico (RJ), enfrentou dificuldades, contando majoritariamente com alunos jovens e pobres.

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No auge do sucesso, Eros Volúsia foi a primeira brasileira e mulher latino-americana a estampar a capa da revista norte-americana Life Magazine. A edição de 22 de setembro de 1941 trouxe a reportagem “Brazil’s Top Dancer”. Na capa, Eros aparecia sorridente, adornada com vários acessórios e trajando o famoso bustiê de contas, que se movia em compasso com a dança.
No ano seguinte, partiu para os Estados Unidos com apoio direto do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha. No contexto de aproximação cultural entre os países, assinou contrato com a Metro Goldwyn Mayer para atuar na comédia Rio Rita (1942). Entretanto, dificuldades na relação com os produtores restringiram sua participação a dois números: Macumba e a célebre composição Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu. Foram abandonadas as diminutas vestimentas que haviam feito sucesso na capa da Life.
Eros não se adaptou a Hollywood. Apesar de propostas para atuar em outros filmes e em casas de espetáculo, retornou ao Brasil. No cinema nacional, participou das produções Favela dos Meus Amores (1935), Samba da Vida (1937), Caminho do Céu (1943), Romance Proibido (1944) e Pra Lá de Boa (1949).

Em novembro de 1944, Eros estreou, na Urca, o espetáculo Ritmos do Brasil. Em julho daquele ano, a Força Expedicionária Brasileira havia sido enviada ao front da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, a imprensa reforçava o tom nacionalista e o orgulho de ser brasileiro. As danças nacionais estilizadas por Eros traduziriam o que haveria de mais autêntico no povo brasileiro, em contraposição aos discursos raciais propagados pelo III Reich.
Em 1948, o Mesp fez novo convite à bailarina para representar o país no Festival Internacional de Dança, realizado em Paris, em maio daquele ano. Segundo suas memórias, a viagem foi um sucesso que rendeu frutos além da apresentação na Maison de l’Amérique Latine e no Champs Elysées. Eros permaneceu seis meses em cartaz na boate Drap D’or e recebeu convite do diretor dos Archives Internationales de la Danse para proferir conferência no Teatro Ópera de Paris.
Conhecida como a mais brasileira das bailarinas, Eros deixou os palcos ao aproximar-se dos 40 anos, permanecendo como professora da Escola de Dança do SNT. Formou várias gerações de bailarinos e deixou importante legado artístico. Entre suas alunas destacou-se Mercedes Batista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e fundadora da primeira companhia dedicada exclusivamente à dança afro no Brasil. O curso dirigido por Eros foi extinto em 1966, quando ela se aposentou. A artista nunca se casou ou teve filhos, permaneceu ao lado da mãe até 1980, ano do falecimento desta. Após o episódio, Eros recolheu-se da vida pública, vindo a falecer em 2004.

Autora: Karla Carloni. Professora do Departamento e Programa em Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora do CNPQ. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0346965095733754
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