Nascida em 04 de agosto de 1883, na cidade do Rio de Janeiro, Arinda da Cruz Sobral era filha de Margarida Perpétua de Oliveira Sobral e João José da Cruz Sobral. Morou na região da Tijuca, zona norte da cidade, e depois no centro da cidade. Além dessas localidades, Arinda frequentou os bairros de São Cristóvão e Ilha do Governador para atividades de lazer e trabalho. A arquiteta e professora se casou no ano de 1923 com João Henrique Belham, funcionário do Thesouro Nacional, passando a assinar o nome como Arinda Sobral Belham, e teve uma filha em 1926, registrada com o mesmo nome da avó materna, Margarida. A menina faleceu em 1932, e não foram encontradas evidências de que Arinda tenha tido outros filhos e/ou filhas.
Em 1907, Arinda ingressou no curso de arquitetura da Escola Nacional de Bellas Artes (ENBA), localizada no Centro da cidade do Rio de Janeiro, e pode ser considerada a primeira mulher a realizar este curso no país. Vale destacar que a instituição, situada no Rio de Janeiro, então capital, foi a única a oferecer um curso de arquitetura no Brasil até 1930, quando foi fundada a Escola de Arquitetura de Minas Gerais. Atualmente, diante do grande número de profissionais homens eleitos como historicamente relevantes no campo da arquitetura e do urbanismo, a experiência de Arinda precisa ser retomada e celebrada.

Tendo em vista que a atuação em profissões e ofícios da construção civil não foi receptiva à presença feminina, destacar a trajetória da primeira arquiteta tem importância não somente para que possam ser apontados os limites e os percalços que ela enfrentou, mas também as suas possibilidades de agência diante deles.
Antes de ingressar na ENBA, Arinda se formou no curso normal em 1906 e se tornou professora da Prefeitura do Distrito Federal. Sua irmã, Palmyra da Cruz Sobral, também foi professora municipal. Arinda exerceu variadas atividades em seu tempo de magistério, como lecionar aulas, ocupar o cargo de diretora de escola e fiscalizar as provas da instrução primária pela Directoria Geral de Instrucção Pública Municipal. Também participou e organizou atividades extracurriculares, tais como exposições, festas e seminários educacionais, além de ser professora em curso preparatório para a Escola Normal.
Durante o curso de formação para o magistério, no ano de 1906, Arinda e outras normalistas realizaram uma visita às obras da Avenida Pereira Passos, no Centro da cidade. A reforma fazia parte do grande projeto higienista e modernizador do prefeito Pereira Passos. Na ocasião, o grupo visitou dois edifícios emblemáticos: o Palácio Monroe e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A visita, organizada pelo professor Ernesto da Cunha Araujo, foi guiada pelos projetistas dos edifícios, o engenheiro Souza Aguiar e o arquiteto Oliveira Passos, respectivamente.
Indica-se como hipótese que experiências como esta podem ter sido substanciais na escolha da normalista pelo curso de arquitetura. Outro ponto que merece destaque na análise de sua trajetória é o fato de que Arinda, apesar de ter finalizado o normal em 1906, desde 1898 atuava como adjunta estagiária em escolas municipais e, no ano seguinte, ao término do curso normal, ingressou na ENBA. Portanto, a profissional dividia seu tempo entre o trabalho e os estudos desde o início de sua formação e, para se ter uma ideia do tamanho do desafio que pôde ter encarado neste momento de sua vida, no caso da arquitetura, ela embarcou em uma segunda formação que, ao contrário do magistério, era ocupada majoritariamente pelo sexo masculino.
A presença de figuras femininas na ENBA, mesmo em outros cursos, era dificultada. Foi somente em 1901, com o Decreto 3987, que as mulheres foram autorizadas a se matricular na escola. Antes, elas só poderiam frequentar a instituição como alunas livres, ou seja, sem ingressar em curso, fazendo apenas disciplinas isoladas. A partir do decreto, mulheres passaram a se matricular, sobretudo, nos cursos de pintura e escultura, conforme os indícios desse contexto, o que reforça o caráter pioneiro de Arinda ao iniciar o curso de arquitetura seis anos após a liberação concedida às mulheres.
Há vestígios da atuação da estudante no curso, tais como exercícios feitos nas aulas, participação em exposições e em reivindicações feitas pelos estudantes, entre outros. Cabe dizer que, neste contexto, a ENBA vivia uma crise institucional e financeira que se arrastava desde o Império e que foi reforçada na República por ter sido considerada um baluarte da produção artística a serviço da Monarquia. Este elemento é importante porque assim se compreende que Arinda esteve envolvida nas manifestações de insatisfação e nas aspirações por mudanças almejadas pelos estudantes, que foram se concretizando ao longo das décadas posteriores.
Consta no Livro de Títulos e Diplomas Expedidos entre 1903 e 1970 que Arinda recebeu o título em arquitetura no ano de 1914. Porém, em 1911, a estudante já era anunciada como a primeira mulher a se formar em arquitetura no Brasil: “Em architectura, porém, nenhuma senhora se havia matriculado até 1907, quando se matriculou a primeira e unica, que foi a Exma. Sra. D. Arinda da Cruz Sobral, normalista pela Escola Normal do Distrito Federal, e professora adjunta effectiva de 1ª classe no mesmo Districto” (1911, p. 2).
Em outros momentos, Arinda também foi reconhecida como a primeira arquiteta do Brasil. Foram encontrados outros relatos em periódicos diversos que fazem referência a este fato até 1924. Mais tarde, em 1959, em publicação sobre o centenário do nascimento de Adolfo Morales do Los Rios, prestigiado diretor da ENBA, a professora e arquiteta foi mencionada como sendo a primeira mulher a se formar em arquitetura (Pinheiro, 1959). Portanto, conclui-se que a estudante foi conhecida e reconhecida em sua época, mas esquecida com o passar do tempo.
Sobre o fato de Arinda ter se formado e atuado ou não como arquiteta, a partir de pesquisas foi concluído que ela seguiu a carreira no magistério até a jubilação, em 1930, e não na arquitetura. Tal conclusão pôde ser construída com base em dois elementos. O primeiro corresponde ao fato de não terem sido encontradas evidências de atividades da profissional em sua segunda formação, e o outro se refere ao que foi afirmado em periódico no ano de 1924: “E’ certo que, mlle. Arinda, que acumula as funções de architecta com a de professora municipal, preferiu continuar a ensinar o B A BA’ aos gurys, a subir e descer andaimes, fiscalizando obras…” (1924, p. 2).
Apesar da conclusão, não se descarta a possibilidade de que mais indícios sobre Arinda possam ser encontrados e que estes possam revelar novos dados sobre sua atuação na arquitetura. Contudo, foi descoberto que, ao menos em 1911, Arinda realizou o projeto da Capela São Silvestre, localizada na Estrada Heitor da Silva Costa, no bairro de Santa Teresa, no caminho para o Morro do Corcovado. O fato foi registrado nos jornais da época. A capela foi uma iniciativa do Coronel João Victorino da Silveira e Souza Filho, da Sra. A. Saraiva da Fonseca e do Dr. André Gustavo Paulo de Frontin. O lançamento das obras foi realizado com a presença do presidente do Brasil à época, Hermes da Fonseca, no dia 24 de dezembro de 1911. O terreno foi cedido pela Tranway, Light and Power Co. O projeto de Arinda da Cruz Sobral foi feito segundo o programa do engenheiro e professor Ernesto da Cunha Araujo Vianna. É informado que fora enterrado junto ao alicerce um cofre com bilhetes, jornais do dia e ata da cerimônia que cita o nome de Arinda.
Existe uma breve descrição do projeto publicada no jornal A Notícia, nos dias 28 e 29 de dezembro de 1911, página 3. A festa do dia 31 foi anunciada e coberta pelo jornal O Paiz nas edições de 30 de dezembro de 1911 e 02 de janeiro de 1912. Eis alguns dados da festividade: no local de construção da capela foi colocada a estátua de São Silvestre, a Light cedeu iluminação, houve música, discurso do deputado Coelho Neto e a presença do presidente da República e sua família. O engenheiro Souza Aguiar também esteve presente. O construtor que iniciou as obras da capela foi Henrique Lavoie. O início das obras também foi celebrado no dia 20 de janeiro de 1912, feriado na cidade.
Apesar das referências em periódicos da época ao fato de Arinda ser autora do projeto, a capela foi registrada posteriormente como de autor desconhecido e datada de 1910 (Tombamento Federal pelo processo 0762-T-65, inscrito no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, inscrição 042. Ano do tombamento: 1967).
O contexto de elaboração do projeto da capela remete a um grave ocorrido na trajetória da profissional: o assédio que vivenciou na ENBA por seu professor, Ernesto da Cunha, em 1912. Nos periódicos constam relatos de que Arinda estaria caminhando com seu pai pela calçada da ENBA, então na Avenida Central, quando avistou o professor. Nesse momento teria ocorrido o início de uma discussão. A imprensa afirma que a professora e arquiteta acusava o professor de assediá-la e este se defendia (1912, p. 3). Os envolvidos foram parar na delegacia, onde Arinda explicou que o docente lhe lançava olhares e que a fala dele era semelhante às cartas anônimas que andava recebendo. Por fim, Ernesto foi ouvido, negou a situação e se comprometeu a não mais falar com Arinda.
A situação remete a inúmeros significados. Arinda não frequentou a escola sem ser notada e, mais do que isso, sofreu a hostilidade do ambiente masculino. Porém, é preciso destacar a reação da estudante diante do caso: ela não se calou perante a situação evidentemente desfavorável. Confrontou o professor, não aceitou ser “cortejada” sem sua permissão e seu dito escândalo, na recém-inaugurada Avenida Central, poderia representar o anseio de muitas outras mulheres que frequentavam a instituição.
Acredita-se, a partir dos dados levantados até o momento, que Arinda da Cruz Sobral foi a primeira arquiteta formada no Brasil, tendo em vista que, até a sua data de titulação, não há notícias de outra instituição de ensino que ministrasse o curso de arquitetura além da ENBA. Provavelmente, Arinda é a primeira mulher a receber o título de arquiteta na América Latina e/ou América do Sul, visto que o registro mais conhecido é o da arquiteta uruguaia Julia Guarino, em 1923. Dessa forma, a arquiteta é uma figura importante pelo pioneirismo e por seu legado arquitetônico, como a Capela São Silvestre, mas também por sua dedicação à educação pública como professora municipal. Sua dupla formação, não sem dificuldades, demonstra os desafios e os alcances das mulheres no contexto das primeiras décadas do século XX.
Se, no passado, as mulheres eram minoria na área, hoje elas representam cerca de 68% do total de profissionais registrados no Conselho de Arquitetura e Urbanismo no Brasil. Porém, apesar deste índice, ainda persistem as desigualdades de gênero, manifestadas de diversas formas nas atividades cotidianas desta profissão. Integra-se a este aspecto o fato de as mulheres serem praticamente inexistentes nas narrativas sobre a arquitetura e o urbanismo, ou seja, existe uma invisibilidade da mulher na historiografia da profissão.
Camila Almeida Belarmino.Doutora pelo IAU-USP e pesquisadora do Laboratório de Pesquisas em Teoria da História e Interdisciplinaridades da UFRRJ. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/2206299033438539
Referências Bibliográficas
BELARMINO, Camila A. A mulher na arquitetura e urbanismo: trajetórias profissionais entre as décadas de 1910 e 1960 no Rio de Janeiro. 2024. Tese (Doutorado em Ciências) – Programa de Pós – Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2024.
FUTURA architecta. O Paiz, Rio de Janeiro, ano 28, n. 9232, p.2, 16 dez.1911.
MULHERES architectas. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano 33, n. 9079, p. 2, 17 jan. 1924.
NOS DOMINIOS da arte… A Noite, Rio de Janeiro, ano II, n. 376, p. 3, 27 set. 1912.
PINHEIRO, Gerson Pompeu. Oração do Professor Gerson Pompeu Pinheiro. Arquivos da Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, n. 5, 1959.
SALVATORI, Helena. Arquitetura no Brasil: ensino e profissão. Arquitetura Revista, vol. 4, n. 2, p. 52-77, 2008.
SCOTT, Joan. Gênero, uma categoria útil de análise histórica. Revista Educação e Realidade. Porto Alegre: UFRS/FACED, v. 16, n. 2, 1989.
S. SILVESTRE. A Notícia, Rio de Janeiro, ano 18, n. 334, p. 3, 28-29 dez. 1911.
STRATIGAKOS, Despina. Where are the women architects? New Jersey: Princeton University Press, 2016.
VIDA social. Festas. O Paiz, Rio de Janeiro, ano 28, n. 9949, p. 3, 2 jan. 1912.
