
Gilka da Costa de Mello Machado nasceu no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1893, e morreu em 11 de dezembro de 1980, na mesma cidade. Cresceu em uma família de artistas: era neta do violinista Francisco Pereira da Costa, que também foi professor de música dos filhos do imperador Dom Pedro II, e da cantora lírica Cândida Moniz, primeira pessoa a receber um poema escrito pela autora. A mãe, Thereza Cristina, era atriz de rádio, e sobre o pai de Gilka pouco se sabe, além de ter-lhe transmitido o sobrenome Mello. Até os 17 anos, a autora viveu com a mãe e os avós em um lar que respirava cultura, frequentado por grandes personalidades, como Olavo Bilac e Chiquinha Gonzaga (VOLÚSIA, 1983, p. 21-22).
Em 1907, aos 14 anos, Gilka teve sua primeira aparição nos jornais cariocas com a publicação de seu conto O poeta e a dor no Gazeta de Notícias (10 de junho de 1907, p. 4). Apesar de não ter vencido o concurso, o texto foi publicado enquanto menção honrosa e chegou a ser publicado fora do Estado do Rio de Janeiro. Após essa primeira aparição prodigiosa, até 1915, seu nome apareceu mais frequentemente nos periódicos em razão de sua militância feminina e não por sua carreira literária, como era de se supor.
A atuação de Gilka Machado na luta pela emancipação feminina começou em 1910, no Partido Republicano Feminino (PRF), onde exerceu os cargos de secretária e oradora oficial. Em nome do PRF, integrou a diretoria da escola Orsina da Fonseca que havia sido atribuída ao Partido pelo então presidente Hermes da Fonseca (Gazeta de Notícias, 26 de outubro de 1910, p. 2). Considerado a primeira organização exclusivamente feminina do país, o PRF evidencia a potência associativista das mulheres brasileiras antes mesmo de o voto feminino ser uma possibilidade.

Em 1911, aos 18 anos e casada há cerca de um ano com o poeta Rodolpho Machado, participou do primeiro concurso literário para moças do jornal A Imprensa, conquistando o primeiro e o segundo lugares com as poesias Falando a Lua e Beijo, respectivamente (A Imprensa, 16 de novembro de 1911, p. 2). Esse episódio marcou o início da trajetória pública de seus poemas e da recepção social dúbia que provocariam: o teor sensual e corporificado de suas poesias gerou elogios e críticas mordazes. O famoso poeta Lima Barreto reconheceu-a como uma poetisa de “verdadeiro talento”, enquanto o médico e político Afrânio Peixoto a chamou de “matrona imoral” (A Imprensa, 16 de novembro de 1911, p. 2).

Há certa confusão em relação a este concurso, frequentemente reproduzida em diversos veículos. Em entrevista concedida à filha Eros Volúsia, Gilka Machado teria afirmado ter vencido o primeiro concurso de sua vida, promovido pelo jornal A Imprensa, aos 13 anos, e que teria conquistado o primeiro, o segundo e o terceiro lugar(VOLÚSIA, 1991, p.8-10). No entanto, à luz das fontes históricas, o primeiro concurso do jornal data de 1911; portanto, a poetisa tinha 18 anos, e não 13, como sugerido. Outra divergência diz respeito às premiações: embora seja notável que tenha conquistado o primeiro e o segundo lugar(compartilhado com outra poetisa: Adhail Beatriz), o terceiro lugar não pertenceu a Gilka Machado (A Imprensa, 20 de outubro de de 1911, p.4-5).
O primeiro livro de poemas de Gilka Machado, Crystaes Partidos, foi impresso em 1915 e publicado em 1916. Naquele contexto, a autora já era mãe de dois filhos: Heros e Helios. Jornais das mais variadas tendências políticas e motivados por ideologias diferentes viraram palco de comentários sobre suas poesias e sobre a própria poetisa. As críticas podem ser agrupadas em três tipos diferentes: a)a excepcionalidade de Gilka Machado, afastando-a de outras mulheres e da própria noção social de feminino; b)as críticas negativas denunciando o caráter erótico e à “sandice” de suas reflexões sobre a condição feminina; c) as críticas positivas, que elogiavam sua sensibilidade poética (FREIXO, 2019).
A título de ilustração da poesia erótica de Gilka Machado, transcrevo um fragmento de Rosas, presente na obra inaugural:
Se é rósea lembra carne ardente, palítante…
Nívea – lembra pureza e nada há que suplante,
Rubra – de certa boca os lábios nela vejo.
Seja qualquer a cor, por sobre o hastil de cada rosa,
Vive a Mulher, nos jardins flor tornada:
– símbolo da Volúpia a excitar o desejo. (MACHADO, 2017, p.67)
A denúncia da condição feminina pode ser observada no poema Ser Mulher do qual retiro o seguinte trecho:
...Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
Para poder com ela, o infinito tranpor;
Sentir a vida triste, insípida, isolada,
Buscar um companheiro e encontrar um Senhor…
…Ser mulher e oh! Atroz, tantálica tristeza!
Ficar na vida qual uma águia inerte, presa
Nos pesados grilhões dos preceitos sociais! (MACHADO, 2017, p.31)
Em nome das dificuldades de viver exclusivamente de literatura na Primeira República, Gilka colaborou com diversos jornais e revistas ilustradas do Rio de Janeiro, como A Imprensa, O Paiz, Jornal do Brasil, Fonfon, entre muitos outros. Destacou-se especialmente na revista ilustrada A Faceira, onde exerceu o cargo de diretora da primeira redação exclusivamente feminina do Brasil (A Faceira, julho de 1913, p. 10).

Em 1923, a escritora se tornou viúva prematuramente com a morte de Rodolpho Machado. As notas autobiográficas de Gilka Machado nos informam que com a viuvez as poucas oportunidades que existiam ficaram ainda mais escassas (MACHADO,2017,p.15). Para garantir o sustento da família, a poetisa trabalhou como diarista na Estrada de Ferro da Central do Brasil e posteriormente, abriu uma pensão em São Cristóvão onde servia muitos dos seus pares literários (SILVA, 2007, p.14).
A pobreza da escritora também foi substrato para as críticas que se abatiam sobre ela, a partir de um nítido viés de classe. O crítico e literário Antônio Torres escreveu em uma de suas críticas que a autora não era aristocrata de sangue nem de situação social, sendo uma “intelectual suburbana”(Gazeta de Notícias, 21 de maio de 1916, p. 2). O já citado imortal e médico higienista Afrânio Peixoto, ao visitar a escritora atravessou os recortes de classe e de raça chamando-a de “pequena mulata” e “mestiça” em um ambiente onde “tudo respirava a pobreza e miséria” (MACHADO, 2017.p.48).
Estas palavras acabaram legitimando uma determinada corrente dentre os estudiosos de Gilka Machado que afirmam sua negritude. Segundo este viés a autora teria sofrido um processo de embranquecimento como o já vivenciado por outras personalidades relevantes como Machado de Assis e o próprio presidente Nilo Peçanha. No entanto, a polêmica não apresenta um consenso e os traços fenotípicos de Gilka acendem ainda mais o debate. Um relevante contraponto é o fato de que a poetisa e sua filha, Eros Volúsia, bailarina renomada, viajaram de primeira classe para os Estados Unidos e se hospedaram em um hotel do Central Park em pleno contexto de segregação racial das leis Jim Crow (SOBRINHO, 2022, p.23).

Em 1933, Gilka foi eleita a maior poetisa do Brasil em concurso promovido pelo jornal O Malho. Para celebrar a vitória, a poetisa Iveta Ribeiro, diretora do jornal Brasil Feminino, planejou homenageá-la com uma coroa de ouro na presença do presidente Getúlio Vargas, mas a escritora não compareceu, e o evento acabou não acontecendo (Brasil Feminino, janeiro de 1933, p. 26).
Essa ausência reflete certo pessimismo que apareceu recorrentemente em suas obras e entrevistas, relacionado a dificuldades financeiras e à própria dimensão social da poesia. Segundo Gilka, o sucesso literário dependia dos recursos pecuniários dos autores, e as críticas que sofreu eram fruto de hipocrisia social, o que lhe causou “enjôo” do “ambiente” da poesia (MACHADO, 2017, p. 36).
Mesmo assim, Gilka continuou escrevendo e publicando diversos livros após Crystaes Partidos (1916), incluindo: Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), O Grande Amor (1928), Carne e Alma (1931), Poemas Escolhidos (1931), Sublimação (1938), O Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1965) e uma antologia de poesias completas em 1978.
Em 1977, após a ABL permitir a aceitação de mulheres em seus quadros de imortalidade, a autora chegou a ser indicada por Jorge Amado para ocupar uma das cadeiras da instituição , mas rejeitou a candidatura. A rejeição se orientou na mesma descrença denunciada em seus escritos. Em 1979, Gilka Machado recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra, confirmando a qualidade e extensão de sua produção (MACHADO, 2017, p. 425).
A poetisa morreu em 11 de dezembro de 1980, aos 87 anos, na cidade de seu nascimento. Para Carlos Drummond de Andrade a “primeira mulher nua” da literatura brasileira faleceu “rodeada de silêncios” ( Jornal do Brasil, 7 de dezembro de 1980. p. 7.) O apagamento histórico e literário não é uma exclusividade de Gilka Machado, mas também faz parte de sua trajetória e precisa ser pontuado.
Este processo é tão sistemático e histórico que Constância Lima Duarte tomou emprestado o termo memorícidio para tratar do assassinato da memória e de uma determinada cultura feminina.(DUARTE, 2024, p.8). Euridice Figueiredo, alinhada a esta perspectiva, assinala que “as mulheres e os não brancos não entraram no cânone ocidental senão como honrosas exceções que confirmam a regra”(FIGUEIREDO, 2020,p.85)
À primeira vista pode parecer paradoxal, mas sustento que o esquecimento ao qual as mulheres foram intencionalmente submetidas precisa ser lembrado. Neste sentido, é fundamental que se faça um trabalho arqueológico (FAEDRICH, 2016,p.39) para que se retire as autoras do passado em que foram aprisionadas (FIGUEIREDO, 2020,p.90). Justamente por isso essas palavras fazem parte das poucas páginas dessa pequena biografia.

Autora: Bárbara Freixo. Mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense. Currículo Lattes:http://lattes.cnpq.br/1146446026602183
Referências Bibliográficas:
FIGUEIREDO, Eurídice. Por uma crítica feminista: leituras transversais de escritoras brasileiras. Porto Alegre: Zouk, 2020.
FREIXO, Bárbara Romano Athila. Intimidade política: uma análise dialógica do particular infinito de Gilka Machado (1916-1930). 2019. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019.
MACHADO, Gilka. Poesia completa. Organização de Jamyle Rkain. Prefácio de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros, 2017. Selo Demônio Negro. 440 p.
SILVA, Soraia Maria. Poemadançando: Gilka Machado e Eros Volúsia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007. 264 p.
