Enciclopédia Mulheres no Brasil Pós-1889

Edna Marília Lott de Moraes Costa (1919 – 1971)

Edna Marília do Amaral Lott nasceu na cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, no dia 28 de maio de 1919. Tornou-se Edna Marília Lott de Moraes Costa em junho de 1943, após o casamento com Oscar de Moraes Costa, oficial do Exército, com quem teve 5 filhos e com quem esteve casada até o seu falecimento em 1959. Era a segunda filha do casal Henrique Lott e Laura do Amaral Lott. Cresceu em um lar fortemente católico, permeado pelos valores militares. O pai era um jovem oficial do Exército, a mãe vinha de família de militares. Durante a infância, estudou em colégios públicos até ingressar no Instituto de Educação, grande referência educacional para jovens moças.

Foto de Ronaldo Moraes e Paulo Namorado. Publicada em: Edna Luta por Lott. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, ano XXXII, n. 20, 27 de fev. 1960, p. 118.

Edna Lott formou-se no final dos anos 1930 e prestou vestibular para História na Universidade do Distrito Federal (UDF), concebida por Anísio Teixeira. Devido a disputas políticas, a UDF foi fechada e incorporada pela Universidade do Brasil (UB), atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), projeto do então Ministro da Educação e Saúde (MES), Gustavo Capanema. Graduando-se na UB no início dos anos 1940, Edna Lott trabalhou em vários colégios públicos de nível fundamental e médio.


Em 1953, retornou ao Instituto de Educação como professora, lecionando a diversas estudantes. Naquele momento, o instituto foi um importante espaço na formação política das mulheres cariocas que ingressaram posteriormente na política. Ao final da década de 1950, Edna Lott tornou-se professora do Colégio Pedro II, lecionando no campus do Humaitá. A instituição de ensino era uma das mais prestigiadas do país até os anos 1960. Ser professor do colégio era uma das posições que conferiam elevado status aos profissionais da Educação. No mesmo ano, Edna começou a interessar-se e participar dos debates políticos da época.


Em 1959, começaram especulações sobre a sucessão do então presidente Juscelino Kubitschek, pensando nas eleições presidenciais do ano seguinte. Nesse processo, o nome do general Henrique Teixeira Lott, então Ministro da Guerra e pai de Edna, ganhou força devido ao movimento por ele liderado, o Contra-Golpe de 11 de novembro de 1955. Formalizado candidato presidencial do Partido Social Democrático (PSD), Lott enfrentou grandes dificuldades externas e internas em sua campanha. Entusiasmada com a política, Edna tornou-se rapidamente o principal cabo eleitoral do pai.


Durante o ano de 1960, a professora criticou duramente Juscelino Kubitschek, João Goulart (então vice-presidente), as cúpulas do PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Sebastião Paes de Almeida (então ministro da Fazenda de JK), além de outras figuras políticas. Em sua participação na campanha do pai, Edna realizou comícios, reuniões, fundações de comitês eleitorais etc. na cidade do Rio de Janeiro e em outros estados.

Edna Lott (centro) em comício de candiatura do pai (esquerda). Ao lado direito está Tancredo Neves. Santos Dumont – MG. Jornal Folha de Minas. Arquivo Público Mineiro -FM-2-1-154 . http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=60718

Chamando atenção, principalmente do público feminino, Edna Lott virou tema de matérias em revistas como O Cruzeiro, Manchete e Jóia. A professora defendia o nacionalismo de esquerda, a soberania nacional, o desenvolvimento com inclusão social, entre outras bandeiras. Apesar da derrota do pai no pleito em 3 de outubro de 1960, Edna continuou participando ativamente da política. Ainda na eleição de 1960, tornou-se uma das principais lideranças do Movimento Nacionalista Brasileiro (MNB), formado principalmente por militares.


No ano de 1961, participou do I Encontro Latino-Americano de Mulheres, realizado no Rio de Janeiro, e de disputas no Clube Militar relacionadas às viúvas de oficiais. Durante a renúncia de Jânio Quadros, Edna Lott teve papel importante no drama de agosto de 1961, ao rejeitar publicamente, em uma entrevista à Manchete, os acenos que o político paulista fazia às esquerdas políticas da época.


Destacando-se nos anos de 1960 e 1961, a professora angariou forças para lançar sua candidatura à Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (ALEG) em 1962. Candidatando-se pelo PTB, Edna Lott conquistou a quinta maior votação do seu partido, quase chegando a superar a votação de José Gomes Talarico, importante nome do quadro trabalhista. Para obter a expressiva votação de 7.256 votos em sua primeira eleição, a petebista contou com o apoio do jornal de esquerda O Semanário, ligado à esquerda militar. O periódico publicou alguns artigos da candidata alguns dias antes da votação. Com a vitória eleitoral, a deputada passou a dispor de uma coluna fixa no jornal chamada Na ordem do dia, onde discutia política internacional e nacional.

Jornal Folha de Minas. Sem data. Arquivo Públcio Mineiro. http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=58571

Como parlamentar petebista, Edna Lott apresentou uma ação política que se dirigia a duas frentes: (1) uma mais nacional e ideológica e (2) outra mais local e pragmática. Por um lado, discutia as questões das Reformas de Base, a defesa da soberania nacional, a necessidade de uma reforma nacional e popular profunda e radical. Por outro, procurava inteirar-se e sanar os problemas locais dos bairros, como infraestrutura de água, luz, alimentos, transporte, segurança etc. A petebista igualmente incentivava a participação da mulher na política, luta que crescia nos últimos anos. Em 1962, foram eleitas 4 mulheres à ALEG: três de esquerda — Adalgisa Nery (Partido Socialista Brasileiro – PSB, mais tarde PTB), Edna Lott e Velinda Maurício da Fonseca (ambas do PTB) — e uma de direita, Lygia Lessa Bastos (União Democrática Nacional – UDN).


Com o golpe civil-militar de 1964, a ALEG entrou em um período de instabilidade. Cassações foram a tônica, dizimando boa parte das lideranças dos partidos de esquerda, especialmente do PTB. Apesar da derrama, as deputadas de esquerda conseguiram preservar seus mandatos. A despeito da perseguição, Edna Lott continuou agindo politicamente na mesma intensidade, apenas calibrando o conteúdo de seu mandato.

Edna Lott, deputada do estado da Guanabara, faz uma visita ao I.A.P.C. de Quintino/Cascadura. 1966. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Sobrevivendo às primeiras rodadas persecutórias, Edna chegou ao ano de 1965 observando a possibilidade de seu pai ser candidato ao Governo do Estado da Guanabara, possibilidade que não se confirmou pela ação da ditadura militar, que, por meio de casuísmos legais, interditou a especulada candidatura de Lott na Guanabara em 1965. O impedimento do marechal não evitou que o PTB fosse vitorioso na eleição ao governo da Guanabara, em 1965. Naquele pleito, Negrão de Lima, do PSD, venceu Carlos Flexa Ribeiro, da UDN, candidato sucessório do então governador, o udenista golpista Carlos Lacerda.


Apesar da vitória eleitoral e do apoio pessoal de Edna Lott a Negrão de Lima, o PTB não resistiu por muito mais tempo. Ainda no mês em que ocorreu a disputa eleitoral, o general Castello Branco, primeiro presidente após o golpe, assinou o Ato Institucional n.º 2 (AI-2), que extinguiu os partidos da Quarta República (1945-1964).

Acervo FUG. Projeto Calem-se! Voltem para os seus lugares! https://acervofug.online/galeria/voltem-para-seus-lugares/

Com o AI-2, a ditadura militar instituiu a formação de um sistema bipartidário, liquidando a pluralidade de siglas. O novo rearranjo institucional assegurou uma fachada democrática e, ao mesmo tempo, possibilitou o controle da oposição ao regime. Diante desse quadro, Edna Lott trabalhou para a organização do partido de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em 1966, candidatou-se à reeleição ao Legislativo da Guanabara, recebendo a maior votação da sigla e a segunda maior de todo o pleito. Na disputa eleitoral, a emedebista editou uma dobradinha com Chagas Freitas, que se elegeu como candidato mais votado do Brasil à Câmara dos Deputados Federais. Com a aproximação política, a professora tornou-se figura frequente em dois jornais que tratavam do cotidiano carioca, O Dia e A Notícia. Especialmente n’O Dia, a deputada destacou-se na coluna Comandos em Ação, que levava autoridades públicas para averiguar problemas sociais crônicos da cidade, como iluminação, água, esgoto, segurança pública etc.

Com o avanço da ditadura, Edna foi se transformando em uma parlamentar mais local do que nacional, apesar de nunca ter abandonado as pautas nacionalistas e ideológicas por completo. Sobrevivendo às ondas de cassações, Edna Lott pôde avançar na ALEG. Não apenas ela, mas outras mulheres também encontraram espaço para progredir no Legislativo carioca. Em 1966, além das 4 deputadas reeleitas, os cariocas conduziram Yara Vargas (MDB) e Latife Luvizaro (MDB) à ALEG. Embora as mulheres parlamentares avançassem no Legislativo carioca, a ditadura militar logo ceifou a participação política feminina. Em 1968, Yara Vargas foi cassada, seguida por Adalgisa Nery (MDB) e Edna Lott ao final de 1969. As deputadas Velinda Maurício da Fonseca (MDB) e Latife Luvizaro (MDB) morreriam antes do endurecimento das cassações, restando apenas Lygia Lessa Bastos (ARENA) na ALEG, após a proclamação do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968.

A cassação não determinou o fim da participação política de Edna Lott. Em 1970, seu filho Nelson, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), foi preso pela ditadura militar. Com o sequestro e desaparecimento de Nelson nos “porões da ditadura”, a deputada lançou-se em uma busca desembalada pela libertação do filho. Nelson sofreu torturas em diferentes dependências da repressão, como o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), no bairro da Tijuca, e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no bairro da Lapa. A mãe, Edna, após empregar grande esforço nos círculos militares, conseguiu localizar o filho. E passou então a denunciar as torturas que ele sofria. Nesse contexto de tensão e ausência de direitos, Edna Lott foi assassinada, enquanto dormia, no dia 10 de junho de 1971, em Lambari, Minas Gerais.

Jornal O Fluminense, Niterói 11 de Junho de 1971. 1a pag.

O assassino era um ex-assessor da parlamentar que alegou “crime passional”. Mas foi um crime planejado, uma execução a queima-roupa. Mesmo existindo provas contundentes contra o réu e de ele ser o único a alegar possuir uma suposta relação amorosa com a vítima, o tribunal do júri de Lambari acabou condenando-o por “crime passional” em cinco diferentes e consecutivos processos. Condenado, o ex-assessor jamais chegou a cumprir pena. Investigações posteriores apontaram ligações do assassino com oficiais das Forças Armadas, com membros da polícia e do Judiciário de Lambari.

Na imprensa da época, muito foi falado sobre o crime a partir de uma perspectiva de gênero. Discursos de ordem moral conservadora tentaram desmoralizar a mulher, professora, mãe e política. Implicitamente, o caráter político negligenciado foi apontado apenas por alguns poucos jornais. A biografia política de Edna Lott, a importância político-militar do seu pai, as torturas que o filho sofria, nada disso recebeu relevo na cobertura da imprensa. Pouco a pouco, a trajetória de Edna Lott caiu no esquecimento social, político e cultural na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil.

O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 28 de julho de 1971, p.32.

Autor: Felipe Varzea Lott de Moraes Costa, Doutor e Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Bacharel em Ciências Sociais pela mesma instituição. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4609450195451362.

Referências
CARLONI, Karla. Edna Lott. In: ABREU, Alzira Alves de; PAULA, Christiane Jalles de (org.). Dicionário da Política Republicana do Rio de Janeiro. 1. ed. Rio de Janeiro: FGV; Cpdoc, 2014.
LOTT, Felipe. Edna Lott, entre a democracia e a ditadura: 10 anos de luta política (1959-1969). Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019.
_____. A trajetória de Edna Lott: mulheres na política brasileira e carioca, resistência à ditadura militar e a violência da repressão (1919-1976). Tese (Doutorado em História Social) – Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2024.


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