
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, em 17 de novembro de 1910. Apesar
de ter nascido na capital do estado, a origem familiar sertaneja marca sua trajetória intelectual.
Rachel de Queiroz possuía ascendência oligárquica e capital cultural familiar considerável.
Até os dez anos de idade, morou em Fortaleza, Quixadá, Rio de Janeiro e Belém do Pará. As
razões de tantas mudanças foram várias; entre elas a seca cearense de 1915 que prejudicou a
economia familiar, e a busca do pai por trabalhos diversos. Por volta dos dez anos, Rachel de
Queiroz iniciou seus estudos no Colégio Imaculada Conceição. A instituição logo se tornou
Escola Normal e jovem formou-se professora em 1925. No ambiente estudantil da década de
1920, Rachel de Queiroz conheceu Alba Frota (?-1967), colega de colégio e principal
colecionadora dos escritos rachelianos até sua morte acidental em 1967. Hoje seu arquivo
encontra-se junto a documentos reunidos pela mãe de Rachel de Queiroz, ambos disponíveis
no Fundo Rachel de Queiroz do Instituto Moreira Salles. Vale à pena destacar ainda a
importância do Fundo Rachel de Queiroz pertencente ao bibliófilo José Augusto Bezerra
(1948-).
A jovem Rachel começou a escrever para jornais locais em 1927, data a partir da qual
participa do movimento modernista cearense e escreve para jornais críticos ao governo
estadual e à moral católica. Entre 1927 e 1930, Rachel de Queiroz publicou poesias, artigos
literários e políticos para os periódicos O Ceará, O Povo, do qual foi co-fundadora, A Farpa,
A Jandaia, e no suplemento literário do O Povo, a revista Maracajá. Algumas de suas
poesias desta época em que dialogava com o modernismo cearense foram igualmente
publicadas em periódicos do Rio de Janeiro. Ainda nos anos 1920, Rachel de Queiroz
escreveu um pequeno folhetim intitulado História de um nome. No ano de 1928, a então
jornalista prepara os originais de um livro de poesias que intitulou Mandacarú que, no
entanto, só seria publicado após a sua morte. A jovem frequenta ainda, nesta época, o salão
Juvenal Galeno, coordenado pela feminista Henriqueta Galeno (?-1964). Em 1928, Rachel de
Queiroz mantem correspondências com a anarquista mineira Maria Lacerda de Moura (1891-
1945), quem convidou para cooperar com o periódico O Ceará. Ainda nos círculos cearenses,
a jovem entrou em contato com leituras socialistas através de Jáder de Carvalho e do médico
Hyder Correia Lima (1903-1981). Deles recebeu uma primeira formação intelectual de
esquerda que marcou seu pensamento político até pelos menos 1934, quando conhece o
intelectual trotskista Mário Pedrosa (1900-1981).

Rachel de Queiroz escreve seu primeiro romance, O Quinze, em 1930. Este foi
publicado com a tiragem de mil exemplares com financiamento próprio na Tipografia Urânia,
a mesma que já editara livros de outros jovens autores do estado. Com ajuda de padrinhos
literários, enviou exemplares a escritores e críticos de todo o país, recebendo avaliações
positivas do poeta modernista Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), da escritora Maria
Eugênia Celso (1886-1963) e de Mário de Andrade (1893-1945). O aspecto de surpresa frente
à escrita de uma mulher que “parecia não escrever como mulher” marcou a crítica a O Quinze.
Rachel de Queiroz filiou-se ao Partido Comunista do Brasil em 1931 e começou a preparar
seu segundo romance, João Miguel. Em 1932, a escritora foi presa pela primeira vez em
Fortaleza. Ainda assim, voltou ao Rio de Janeiro no mesmo ano para apresentar os originais
do romance a Augusto Schmidt, que prometera editá-lo. No entanto, membros do Partido
Comunista souberam dos originais e exigiram analisá-los antes da publicação. Este foi o
motivo pelo qual Rachel de Queiroz argumentou em suas memórias ter se desligado do PCB
apenas um ano depois de ter sido oficializada como membro do partido. Em 1932, João
Miguel sai pela Schmidt editora, e O Quinze é lançado pela Companhia Editora Nacional, a
maior do país. Nesta época, casa-se com o bancário e poeta pernambucano José Auto da Cruz
Oliveira (?). Com o marido Rachel de Queiroz morou em Fortaleza, Itabuna, Rio de Janeiro,
São Paulo e Maceió. Sua primeira e única filha foi concebida ainda no primeiro ano de
casamento, nascendo em setembro de 1933 e batizada Clotilde. Rachel de Queiroz foi presa
pelo menos mais três vezes ainda nesta década, sempre por conta de seu envolvimento com a
esquerda socialista.
A partir de 1933, quando se mudou com o marido e a filha para São Paulo, a
militância de Rachel de Queiroz passou a girar em torno de Mário Pedrosa (1901-1981) e da
Oposição de Esquerda, nome dado ao movimento trotskista crítico da política de Stalin. Junto
com Pedrosa, Lívio (1900-1988) e Berenice Xavier (1899-1986), Aristides Lobo (1905-1968),
Plínio Mello (1900-?) e Arnaldo Pedroso D’Horta (1914-1973), Rachel de Queiroz fez, assim,
parte da primeira geração trotskista brasileira. Em 1934, mudou-se novamente para Fortaleza,
onde concorreu ao cargo de deputada federal pela Frente Única Antifascista (FUA). Perdido o
pleito, Rachel mudou-se novamente, desta vez para Maceió, onde frequentou junto com o
marido a chamada “roda de Maceió”, cujo personagem galvanizador era o escritor Graciliano
Ramos (1892-1953). Em fevereiro de 1935, Clotilde morreu de meningite e o casamento de
Rachel de Queiroz e José Auto entrou em colapso.
O casal decidiu voltar à Fortaleza, onde a escritora conseguiu um emprego na empresa de exportação Gradvol et Fils. Ao mesmo tempo, estabeleceu contato com a José Olympio Editora, com quem firmou o acordo de publicação de seu terceiro romance, finalizado em outubro de 1936, chamado Caminho de Pedras. O romance traz uma trama envolvendo adultério no plano dos personagens, envolto numa crítica direta ao funcionamento do Partido Comunista e o conflito entre proletários e intelectuais. O livro não teve uma boa repercussão, sendo criticado em sua moralidade e em sua visão política. Com o golpe de estado de 1937, Rachel de Queiroz foi presa preventivamente e seus livros foram proibidos de circular, o que acabou promovendo seu nome ainda mais. Em 1938, a companhia Editora Nacional se dispôs a publicar a terceira edição de O Quinze e a segunda de João Miguel, e os livros começaram a ser traduzidos na Argentina e na Alemanha.

Rachel de Queiroz e o marido mudaram-se para o Rio de Janeiro e decidiram se separar em 1939. Na capital do país Rachel de Queiroz lançou o seu quarto e último romance da década de 1930, As Três Marias, pela José Olympio Editora. Além disso, passou a escrever regularmente para o periódico Diário de Notícias, para o Correio da Manhã, Revista do Brasil, Diário Carioca, O Jornal, Diretrizes, fez traduções para jornais e para a José Olympio, deu palestras sobre cinema e literatura, e trabalhou como jornalista na agência de notícias Reuters. As Três Marias foi seu romance de maior sucesso quando da publicação, impresso em três mil cópias e imediatamente valorizado por sua densidade e força, ganhador do Prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira. Foi o primeiro romance da autora escrito em primeira pessoa e revelou, de fato, um conjunto de experiências vividas pela protagonista feminina durante os estudos em um colégio de freiras. O ano de 1939 marcou ainda seu encontro com o médico Oyama de Macedo (1910-1982), que veio a ser seu segundo companheiro, com quem permaneceu até a morte deste, em 1982.
Ao longo da década de1940, parte da produção racheliana consistiu nos artigos escritos para jornais e revistas, mastambém as traduções feitas para a J.O. Foram mais de trinta títulos traduzidos 1950. Além disso, escreveu os diálogos para o filme Jangada, do cineasta Raul Roulien (1905-2000) e para O cangaceiro, do diretor Lima Barreto (1906-1982), ganhador de dois prêmios no
Festival de Cannes. O contrato firmado com a revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand (1892-1968), em fins de 1945, garantiu a Rachel de Queiroz um emprego fixo que durou cerca de trinta anos, com poucas interrupções. A autora cearense foi responsável pela coluna Última Página, publicada semanalmente até 1975, perfazendo um total de 1387 crônicas publicadas somente nesta revista.
Com o fim da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, Rachel de Queiroz foi convidada por Mário Pedrosa para fundar um periódico de esquerda, chamado Vanguarda Socialista. Encontram-se artigos da escritora apenas neste ano de 1945, mas Rachel chegou a fazer propaganda do periódico até a década de 1950, quando este já era órgão oficial do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Já em relação às configurações políticas que se estabeleceram entre 1945 e 1964 é preciso afirmar a complexidade da atuação e do ensamento político de Rachel de Queiroz. Isto porque a autora não integrou oficialmente nenhum dos partidos políticos formados na ocasião, mas não deixou de expressar suas opiniões em crônicas para a revista O Cruzeiro e para o jornal Diário de Notícias. O dado
mais importante e constante quando consideramos a trajetória intelectual de Rachel de Queiroz é sua posição anti-varguista. Os anos 1950 também foram importantes para a carreira literária de Rachel de Queiroz. Em 1948, a primeira coletânea de crônicas rachelianas (A
donzela e a moura torta) foi publicada com sucesso pela José Olympio Editora. Em 1950, Rachel lançou o seu primeiro romance em folhetim, chamado O Galo de Ouro. Em 1953, apareceu a sua primeira peça de teatro, Lampião. Em 1958, a José Olympio lançou a segunda peça de Rachel de Queiroz, A Beata Maria do Egito.
Data do começo dos anos 1960 o envolvimento de Rachel de Queiroz com a direita militar contrária ao governo de João Goulart: À mesma época, Rachel de Queiroz também aparece na lista de possíveis colaboradores do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES),
uma das instituições mais importantes a apoiar o golpe militar de 1964. Muitas de suas crônicas na coluna Última Página da revista O Cruzeiro têm como tema a crítica ao governo de João Goulart e às reformas de base propostas pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
mas combinadas à defesa da democraci. Entre 31 de março e primeiro de abril de 1964, Rachel de Queiroz encontrava-se em sua fazenda no interior do Ceará e não presencia a derrubada do governo Goulart. No entanto, faz questão de explicitar seu apoio ao golpe por meio dos jornais. Este apoio permaneceu explícito ao longo de todo o governo Castelo Branco. No entanto, em situações pontuais não deixou de fazer suas críticas. Rachel se manifestou, por exemplo, contra a censura à imprensa e à perseguição política indiscriminada, mas apoiou alguns exílios políticos e a perseguição aos inimigos políticos da “revolução”.

Ainda em relação ao primeiro governo do regime militar, cumpre citar que a escritora
integrou o Conselho Federal de Cultura (CFC) criado por Castelo Branco em novembro de 1966 até sua extinção, em 1989. Além disso, foi delegada do Brasil na 21ª Sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nos Estados Unidos neste mesmo ano. Rachel de Queiroz publica o romance Dora Doralina em 1975 e torna-se a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1977. A campanha pela possibilidade de entrada das mulheres na instituição à época era, todavia, comandada pela escritora Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982). A eleição de Rachel de Queiroz foi comentada em toda a imprensa da época e vista, principalmente, como uma conquista feminina, pioneirismo que não é mencionado no discurso de posse de Rachel de Queiroz para a ABL em 04 de novembro de 1977. Este posicionamento marca mais uma importante característica política da trajetória da escritora cearense, que sempre se preocupou em não ser identificada com os movimentos feministas da década de 1970. O ano de 1975 destacou-se ainda pela falência da revista O Cruzeiro, na qual Rachel de Queiroz publicou sua última crônica em 22 de janeiro. A partir deste ano, a escritora cearense passou a cooperar com outros periódicos como Jornal do Comércio (RJ), Diário de Pernambuco (PE), Jornal da Barra (RJ), Última Hora (RJ), O Dia e O Estado de São Paulo. Ainda durante o regime militar, Rachel publicou os livros didáticos Meu livro de Brasil (educação moral e cívica – 1º grau). Vols 3, 4 e 5, pela José Olympio Editora. Todos em co-autoria com a professora Nilda Bethlem.
A partir de 1980, a escritora cearense recebeu vários prêmios e homenagens, como o Prêmio Nacional de Literatura de Brasília para conjunto de obra em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará em 1981; a Medalha Mascarenhas de
Morais em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamaraty (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986) e a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); o Prêmio Moinho Santista na categoria de romance (1996); o Diploma de Honra ao Mérito do Rotary Clube do Rio de Janeiro (1996); o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Rachel de Queiroz também foi a primeira mulher a receber o Prêmio Luís de Camões, em 1993.
Seu último romance, Memorial de Maria Moura, foi publicado em 1992 pela Editora Siciliano, e tornou-se sucesso de vendas com a transformação do livro em minissérie pela Rede Globo de Televisão, em 1994. Ainda pela Siciliano foram publicadas coletâneas de
crônicas e o teatro racheliano, além do livro de memórias Tantos Anos, escrito a quatro mãos com a irmã Maria Luiza de Queiroz, em 1998. Rachel de Queiroz ainda escreveu para O Estado de São Paulo até 2001. A autora cearense morreu em seu apartamento no Leblon, Rio de Janeiro, em novembro de 2003. Em 2010, centenário de nascimento da autora, foram publicados importantes livros póstumos, com poesias inéditas: Mandacaru (Instituto Moreira Salles) e Serenata (Armazém da Cultura). A partir da prolífica produção, da complexa trajetória política, do pioneirismo na literatura brasileira e da autonomia de pensamento e de ação, Rachel de Queiroz pode ser considerada como um/a dos/das mais importantes intelectuais brasileiros/as do século XX.

Autora: Natalia Guerellus. Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Jean Moulin Lyon 3. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6555068057213887
Referências Bibliográficas:
ACIOLI, S. Rachel de Queiroz. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2003;
Cadernos de Literatura Brasileira: Rachel de Queiroz. Instituto Moreira Salles. Número 4. 1ª
reimpressão, jan/2002;
FERREIRA, Raquel França dos Santos. A “Última Página” do O Cruzeiro: crônicas e
escrita política de Rachel de Queiroz no pós-64. Tese (Doutorado em História). 2015.
Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Niterói.
284p;
GUERELLUS, Natália de Santanna. Como um Castelo de cartas: Culturas políticas brasileiras
e a trajetória de Rachel de Queiroz. Tese (Doutorado em História). 2015. Programa de Pós-
Graduação em História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Niterói. 388p;
__. Regra e Exceção: Rachel de Queiroz e o Campo Literário dos anos 1930. Rio
de Janeiro: Editora 7letras, 2013;
NERY, Hermes Rodrigues. Presença de Rachel. Ribeirão Preto: FUNPEC Editora, 2002;
QUEIROZ, Rachel de. & QUEIROZ, Maria Luiza de. Tantos Anos. Rio de Janeiro: José
Olympio, 2010.
