Professora emérita do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF). Nasceu em Salvador, Bahia, e mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 1950. Graduou-se na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1959 e iniciou sua trajetória no Departamento de História dessa instituição em 1976, lecionando História da América. Desde então, foi responsável por numerosas atividades acadêmicas nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, dedicando-se também a funções administrativas.
Tributária da História Cultural Francesa e dos Estudos Feministas, a pesquisadora dedica-se a diferentes temáticas, como corpo e sexualidade; escrita feminina; violência doméstica; movimentos feministas; antifeminismo; violência política; e luta pela cidadania. Também reflete sobre as experiências e os legados de mulheres como Bertha Lutz, Patrícia Galvão (Pagu), Alzira Vargas, Evita Perón, Nísia Floresta, Carmen Dolores e Júlia Lopes de Almeida.

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O pioneirismo de Rachel já se manifesta em sua dissertação de mestrado, orientada por Stanley Hilton e defendida em 1974, no PPGH-UFF. Intitulada Bertha Lutz e a Ascensão Social da Mulher (1919–1937) e, posteriormente publicada em formato de livro, a pesquisa é leitura obrigatória para os estudos sobre o movimento feminista no Brasil do início do século XX. Para Soihet, a atuação da líder Bertha Lutz na defesa do direito ao voto — conquistado somente em 1932 — deve ser compreendida como resultado de uma ação estratégica.
Soihet defende a tese de que a bióloga paulista, fundadora da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (1919) e, posteriormente, da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (1922), optou deliberadamente por não aderir às táticas e demandas dos grupos feministas mais radicais, presentes principalmente na Inglaterra e na França. A feminista brasileira teria, de forma estratégica, evitado desgastes considerados desnecessários com os setores mais conservadores, conquistando assim aliados na burguesia e entre políticos da época. Bertha Lutz esteve muito próxima do feminismo liberal norte-americano, sobretudo de uma de suas mais importantes líderes, Carrie Chapman Catt, com quem manteve correspondência e se encontrou em mais de uma ocasião. O trabalho de Rachel foi o primeiro a se dedicar exclusivamente à atuação política de Bertha, tornando-se referência no tema e dando origem a importantes capítulos de livros e artigos em revistas acadêmicas (1974).
Em sua tese de doutoramento, defendida em 1986 na Universidade de São Paulo, sob a orientação de Laima Mesgravis, e posteriormente publicada em formato de livro, Soihet pesquisou os arquivos policiais da antiga capital do país. A partir dessa documentação, aproximou-se do cotidiano das mulheres de baixa renda, com o objetivo de compreender a dinâmica da violência doméstica contra elas. O recorte cronológico abrange os primeiros anos da República, momento de intensas transformações culturais, sociais, econômicas e políticas no Rio de Janeiro. Em Vivências e formas de violência: mulher de classe subalterna no Rio de Janeiro (1890–1920), a autora compreende o conflito de gêneros, entre outros aspectos, como resultado da violência e das contradições de um modelo de masculinidade burguês imposto tanto aos homens quanto às mulheres de diferentes origens sociais (1986).
Na tese os registros policiais localizados pela pesquisadora — diferentemente do que se imaginava — apresentam indícios de transgressão e estratégias de resistência do sexo feminino diante da agressão dos companheiros. Rachel optou por trabalhar com processos de mulheres na condição de acusadas, totalizando 339 casos. As fontes inéditas foram associadas a jornais, revistas, relatórios policiais, teses médicas, obras literárias, recenseamentos e outros documentos da época. A pesquisa teve o mérito de retirar o sexo feminino da condição de passividade e submissão, evidenciando seu protagonismo no espaço privado do lar (2011).
Em depoimento Rachel Soihet atribui seu interesse inicial, já na década de 1970, pela História das Mulheres a um contexto singular que conjugou dois momentos importantes: de um lado, a forte atuação do movimento feminista identificado como “Segunda Onda” e, de outro, uma nova fase da produção historiográfica nacional e internacional, que até então excluía como objeto de estudo os grupos sociais subalternos (1998).
As reflexões inovadoras dos historiadores franceses Roger Chartier e Michel de Certeau, do norte-americano Robert Darnton e do inglês Edward Thompson, nos campos da História Cultural e da História Social, são consideradas pela pesquisadora fundamentais para seu amadurecimento teórico-metodológico. Esses autores contribuíram para pensar as relações de poder entre dominantes e dominados, levando à compreensão de práticas cotidianas — até então desconsideradas por boa parte da historiografia — como potenciais meios de transgressão, negociação e até mesmo ruptura por parte de grupos subalternos diante de diferentes formas de opressão (1998).
A produção de Rachel dialoga, direta ou indiretamente, com referências internacionais dos Estudos Feministas, como Joan Scott, Arlette Farge, Natalie Zemon Davis e Michelle Perrot. O pioneirismo no campo da História das Mulheres, segundo a própria autora, implicou desafios como o isolamento acadêmico, a dificuldade em obter orientação e o difícil acesso à bibliografia especializada. Inicialmente, Simone de Beauvoir foi uma de suas principais referências, junto a Betty Friedan, Heleieth Saffioti e Elisabeth Badinter (1998).
No Brasil, Soihet estabeleceu importantes diálogos e/ou parcerias com pesquisadoras e pesquisadores igualmente dedicados à expansão dos estudos feministas, como Suely Costa, Hildete Pereira de Melo, Joana Maria Pedro, Carla Pinsky, Mary Del Priore, Ana Maria Colling e Losandro Antonio Tedeschi. Esses encontros renderam textos seminais, entre os quais se destaca o artigo “A emergência da pesquisa da História das Mulheres e das Relações de Gênero|”, publicado juntamente com Joana Maria Pedro, em 2007, na Revista Brasileira de História. Rachel também foi uma das fundadoras da REDEFEM (Rede de Estudos Feministas) e, junto com Suely Carneiro, organizou o Grupo de Trabalho de Gênero na ANPUH (Associação Nacional de História).
A produção bibliográfica de Rachel Soihet ultrapassa os estudos sobre a História das Mulheres. A pesquisadora é igualmente referência nos estudos sobre humor, festa e carnaval como possíveis armas políticas capazes de promover a subversão social. Dedicou-se também a reflexões teóricas e metodológicas sobre educação, política e cultura, além de balanços bibliográficos.
Em A Subversão pelo Riso, publicado em 1998, a autora analisa o carnaval carioca de 1890 a 1945 e investiga como a participação dos grupos populares na festa pode ser interpretada como forma de resistência à exclusão social e às barreiras que impediam o pleno acesso à cidadania durante a Primeira República no Brasil. Por meio das escolas de samba, os segmentos sociais mais marginalizados — especialmente a população negra — garantiram a persistência de suas formas de expressão cultural, bem como sua difusão e entrelaçamento com a cultura dos demais segmentos sociais.
Rachel foi responsável pela formação de um grande número de historiadoras e historiadores, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Até o momento, concluiu a orientação de 44 projetos entre mestrados e doutorados, destacando-se como uma das mais profícuas orientadoras do PPGH-UFF (2023). Entre suas orientandas estão as pesquisadoras Suely Gomes Costa, Sônia Regina Rebel, Cecília Azevedo, Ana Mauad, Maria Paula Nascimento Araújo, Natália Guerellus, Maria da Glória Guimarães, Iracélli da Cruz Alves e Bárbara Freixo.
Em 1998, nos Cadernos Pagu, Soihet publicou um depoimento sobre sua trajetória acadêmica e os diálogos estabelecidos com pesquisadoras e pesquisadores nacionais e internacionais. Em 2011, a historiadora Natália Guerellus publicou na Revista de História uma entrevista com Rachel. Guerellus foi orientada pela pesquisadora no doutorado. Em 2012, as professoras Suely Costa e Cecília Azevedo realizaram uma segunda entrevista. O encontro, gravado e divulgado online no canal YouTube, foi uma forma de celebrar e homenagear a professora Rachel Soihet e o laboratório de pesquisa por ela fundado, o Núcleo de Pesquisa em História Cultural (NUPEHC). Já em 2020, Eduarda Alves defendeu dissertação de mestrado investigando a formação do campo da História das Mulheres no Brasil, tendo como fio condutor a trajetória da pesquisadora feminista.
Autora: Karla Carloni. Professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ). Integrante do laboratório de pesquisa Estudos de Gênero e Subjetividades (LEGES) da UFF.Currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/0346965095733754.
Referências Bibliográficas
ALVES, Eduarda. História das Mulheres no Brasil. Configuração do campo por meio da trajetória de Rachel Soihet (1970 – 2010). Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.
GUERELLUS, Natália. “História das Mulheres. Uma entrevista com Rachel Soihet”. Revista de História, 3, 1 (2011), p. 120-124.
http://www.revistahistoria.ufba.br/2011_1/e01.pdf
SARAIVA, L. F. ALVARENGA, Thiago. Dissertações e Teses do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense 1974 – 2022. Niterói: PPGH, 2023. Mimeo.
SOIHET, Rachel. A Subversão pelo riso: estudos sobre o Carnaval carioca da Belle Époque ao tempo de Vargas. 1a.. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998. 198p.
SOIHET, Rachel. Bertha Lutz e a Ascensão Social da Mulher (1919 – 1937). Dissertação (Mestrado). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1974.
SOIHET, Rachel. “História das Mulheres e História de Gênero”. Um Depoimento. Cadernos Pagu (11) 1998: pp.77-87. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8634464
SOIHET, Rachel. Vivências e formas de violência: mulher de classes subalternas no Rio de Janeiro, 1890-1920. 1986. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1986.
SOIHET, Rachel. PEDRO, Joana Maria. “A emergência da pesquisa da História das Mulheres e das Relações de Gênero”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nº 54, p. 281-300 – 2007.
